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quarta-feira, 14 de Abril de 2010

A 15 de Abril de 1980, morreu Jean-Paul Sartre

Vida e obra – Jean-Paul Sartre foi criado pela mãe, Anne-Marie Schweitzer, em casa dos avós, em Paris, depois de o seu pai falecer, quando contava um ano de idade. Era uma criança feia, de ar agressivo e de uma timidez ensimesmada, pouco fomentadora de amizades e que o levavam a viver em fantasias continuadas, que retirava de livros ou revistas ilustradas. Esta notoriedade pessoal foi crescente depois de ter aprendido a ler e escrever, contava cinco anos de idade, e pode dizer-se que passou a partir daí e durante toda a juventude a embrenhar-se cada vez mais em leituras sobre temas variados, escrevendo e estudando intensamente. Embora fosse superprotegido pela mãe e pelo autoritário avô, o jovem Sartre desenvolveu uma personalidade altamente positiva.
Depois de se ter matriculado na Escola Normal Superior Clássica de Paris, Jean-Paul Sartre rejeitou a influência de sua mãe e dos avós maternos e a forma moralista e repressiva de viver da classe média. Após se formar, tornou-se professor (que cativava os seus alunos pelos profundos conhecimentos que alardeava), prelector, insigne conferencista e escritor de esquerda. O conceituado filósofo existencialista (matéria/base existencial do Universo precede a essência de tudo e mesmo do pensamento = sem matéria não se concebem ideias e teorias…) produziu nove peças teatrais, quatro romances, cinco grandes trabalhos filosóficos e inúmeros ensaios e artigos publicados na Imprensa da época, onde esclarecia o seu pensamento ontológico e opinava sobre os mais diferentes assuntos, sempre com uma profundidade cultural digna de registo, demonstrando quão o seu saber enciclopédico era também realmente imenso. Como proponente do existencialismo, Sartre acreditava na responsabilidade política de todo e qualquer cidadão, fosse ele dirigente ou não, respondendo por tudo o que praticasse, nas acções que cometesse, mesmo num universo absurdo e "descuidado" ou anárquico.
Jean-Paul Sartre serviu no Exército francês, no início da II Guerra Mundial, em 1940, como meteorologista, sendo capturado pelas tropas invasoras alemãs e enviado para a prisão. Foi libertado seis meses depois, juntando-se logo a seguir à Resistência como propagandista. Depois da Guerra, o génio deste marcante filósofo do séc. XX, que muito influenciou a juventude europeia deste século, registou um indubitável florescimento, abrindo como conferencista as aulas lectivas de muitas das melhores universidades do "Velho Continente", e as pedras angulares desta fama podem de alguma forma encontrar-se na peça "Entre Quatro Paredes" e no romance, que muita repercussão teve na altura, "A Náusea" (1938). Foi o autor também dos livros "O Ser e o Nada" (1943), "Crítica da Razão Dialéctica", "Os Caminhos da Liberdade", "Mãos Sujas", "O Diabo e o Bom Jesus", "A Muralha", entre outros, onde expunha a sua teoria existencialista, editando "As Palavras", narrativa autobiográfica de Jean-Paul Sartre. A sua reputação internacional atingiu o cume e o seu nome era incontornável a quem quisesse discutir Ciências Humanas, fosse nas faculdades ou nos círculos literários e políticos, ou em meras tertúlias de café.
Politicamente, era um agitador e assumia-se como revolucionário, associou-se ao Comunismo, à Revolução Proletária, escreveu panfletos de cariz político e antifascistas, advogando que o mundo do trabalho devia tomar o poder… mas depois da Revolução da Hungria, em 1956, rompeu com o estalinismo e, mais tarde, virou-se para o maoísmo. Sartre foi galardoado com o Prémio Nobel, em 1964, mas recusou recebê-lo por considerar que lhe era "oferecido por forças conservadoras"… (um aparte: o que dizem a isto as facções da direita reaccionária portuguesa no tratamento que deram a José Saramago!?)
Jean-Paul Sartre foi um dos mentores do Maio 68 ("Imaginação ao Poder"), que muito incomodou a burguesia europeia, a sofrer de um estatismo e programação decrépita nas ideias políticas, quando o mundo do trabalho e dos estudantes não via futuro para a nova sociedade saída do pós-guerra e em plena guerra fria (tensões político-militares entre o Leste e o Ocidente), que não fosse o consumismo exacerbado, sacralizando o lucro, o dinheiro pelo dinheiro, sem olhar a meios, fazendo com que o grande capital dominasse a política… com as consequências a que assistimos agora (terrorismos, recessão económica, caos no ambiente e à porta de catástrofes ecológicas medonhas, etc.) e que os existencialistas já pressagiavam nos anos Sessenta do século passado. Sartre morreu aos 74 anos de idade, depois de uma vida de frenesins imparáveis, em que o vício tabagista (fumava sem parar) e o consumo excessivo de anfetaminas provocaram-lhe, em 15 de Abril de 1980, uma congestão pulmonar fatal.
Vida amorosa e sexual – O primeiro caso amoroso de Sartre aconteceu com Camille, tinha o filósofo 19 anos, conheceram-se numa manifestação pública e a rapariga, amiga íntima de um seu amigo de família, propôs-lhe que começassem a viver juntos. O relacionamento durou cerca de cinco anos, com interrupções promovidas pelas respectivas famílias, mas quando Camille se cansou de viver na pobreza que o parceiro lhe dava, afastou-se definitivamente dele para ir viver com um amante mais velho e rico.
Em 1929, Jean-Paul Sartre conheceu na faculdade Simone de Beauvoir, uma colega atraente e belíssima aluna, que se apaixonou pelo "jovem colega zarolho, de 1,63 de altura, mas com um grande intelecto, com uma cultura enciclopédica fora do comum, que dissertava sobre tudo e todos com uma convicção inatacável". Logo se tornaram amantes, o que encantou Sartre, e começaram uma relação que durou mais de 50 anos, mas como se irá ver seguidamente com uma série de peripécias, que até foram a "imagem de marca" deste casal incomum…
Intelectualmente e como escritora feminista, Simone de Beauvoir não ficava atrás do seu companheiro na convicção das suas ideias, não se coibindo de divulgar e defender as reivindicações e a emancipação para a mulher progressista e com direitos iguais aos dos homens…, aceitando as discussões nos media das ideias que cada um professava sobre o casamento burguês e a paternidade, a que Sartre renunciava abertamente, sobre o compromisso amoroso, a vivência em comum e debaixo do mesmo tecto, o sexo, em suma, o casamento e a procriação, nos parâmetros sentimentais, libidinosos, eróticos, nos deveres conjugais e de paternidade, etc. Em resultado destas ideias e elucubrações, Sartre e Simone concordaram que o relacionamento deles seria aberto, que eles se sustentariam um ao outro em momentos de necessidade, mas que também permitiriam "amores passageiros".
Em 1934, quando Sartre se doutorava em Berlim, o filósofo existencialista exerceu seus direitos pela primeira vez e teve um caso com Marie, mulher de um colega. Sartre informou Simone quando veio passar o Natal a Paris, e em Fevereiro Simone de Beauvoir pediu uma licença temporária no Liceu onde dava aulas e dizendo aos seus amigos que andava nervosa, meteu-se num comboio para Berlim e só descansou quando soube de Marie que o relacionamento com Sartre era uma coisa temporária, sem compromisso a longo prazo… Os seus temores desapareceram e mesmo Sartre o admitiu expressamente. Tempos depois Simone convidou uma sua aluna, que estava sob sua protecção, para ir viver no seu apartamento. Quando Sartre chegou a Paris, simpatizou com a emigrante russa, Olga Kosakiewicz, que vivia com a sua mulher. Como o filósofo tenha experimentado mescalina, que lhe provocaram alucinações continuadas, ficou dependente da jovem Olga para os seus passeios de final de tarde, que o acompanhava e se sentia atraída por aquele homem, professor muito especial pela sua eloquência e vasta cultura. Esta relação de amizade e de mútua sedução, acabou por se transformar numa relação sexual e num "ménage à trois", incluindo Simone de Beauvoir. Num seu romance autobiográfico, a escritora conta como a mulher mais moça usurpou o seu amante e declara: "Há uma coisa absolutamente emotiva, sedutora e verdadeira no ciúme." Uns quatro anos depois Olga encontrou novo amor e deixou Sartre. Porém, Jean-Paul Sartre e Simone continuaram a sustentá-la financeiramente, durante os trinta anos seguintes.
Na segunda metade dos anos 40, Simone teve um caso com o escritor americano Nelson Algren. Ela escreveu que se sentiu rejuvenescer sexualmente e esquecer ciúmes. Nesta altura, Sartre foi visto acompanhado pela nova-iorquina Dolores, a que o filósofo francês dedicava muita atenção em público. Os "amores passageiros", nos anos 50, iniciaram como que um afastamento dos dois escritores, tendo a Imprensa da época divulgado tal situação. Mas Sartre veio afirmar que nutria uma boa relação com Simone, estando sempre presente quando era chamado, como outrossim pensava convictamente da mulher. Nesta época sabia-se que Simone tinha um caso com o jornalista Claude Lanzmann, 17 anos mais novo que ela. Foi por esta altura que entrou na vida de Sartre a judia argelina de 17 anos, Arlette Elkain, vendo-se os quatro a viajarem juntos para vários pontos da Europa. Soube-se depois que Sartre adoptou-a para ela não ser deportada para a Argélia, com o consentimento de Simone. Depois de Lanzmann ter deixado Simone Beauvoir, em 1958, Sartre e ela tornaram-se companheiros constantes e… assumiram-se como casal apaixonado. Durante as duas últimas épocas de vida viajaram permanentemente juntos, viveram, em suma, um para o outro. O amor especial acabou aos 51 anos de relacionamento, estando à cabeceira, no momento da morte do consagrado filósofo, a sua compreensiva companheira Simone de Beauvoir.
Pensamentos de Sartre: "A razão principal de eu viver rodeado de mulheres é simplesmente que prefiro a companhia feminina à masculina; "Regra geral acho os homens monótonos"; "A associação entre um homem e uma mulher sempre tem implicações sexuais"; "As relações com uma mulher, mesmo quando não se está dormindo com ela, são mais ricas."

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