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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Toquinho nasceu em 1946, em São Paulo, a 6 de Julho




Toquinho nasceu em 1946, em São Paulo, com o nome de Antonio Pecci Filho. Era o novo integrante de uma família de ascendência italiana: a mãe, Diva Bondeolli Pecci; o pai, Antonio Pecci; e o irmão de quatro anos, João Carlos Pecci. Moravam no bairro do Bom Retiro, na rua Anhaia, 1144, bem próximo à várzea do rio Tietê, onde se espalhavam vários campos de futebol.  Não havia calçamento, a rua era de terra, por onde desfilavam, em fila organizada, obedientes vacas leiteiras carregando enormes tetas. E após sua passagem, a bola rolava outra vez no chão de terra dura: o portão da cocheira era o gol da gurizada. Em frente, a parede da fábrica onde lixava seus botões. Na esquina, a leiteria onde comprava as balas de figurinhas com seus ídolos do futebol: Cláudio, Luizinho, Baltazar, e tantos outros do Corinthians daquela época. Foi nessa rude simplicidade, brincando na rua e nos campos da várzea, que cresceu o Toninho, como era chamado. Uma de suas maiores emoções dava-se quando o pai o levava junto com o irmão até o Parque São Jorge nos dias de treino do Corinthians. Podia então bater bola com seus ídolos, abraçá-los, tirar fotos com eles, constatar que eles existiam realmente!
Já de pequeno, ele demonstrava um rápido discernimento mental que o dotava de uma incomum agilidade reflexiva. No jogo de futebol de botões, ainda iniciante, chegava a um pranto amargo e ressequido nas derrotas. Não admitia perder, já naquela altura da vida, qual fosse a competição. Ao tornar-se habilidoso no botão, ninguém o derrotava, ele vencia todos os torneios.
Essa vontade de vencer, desvendar o comum, conjugadas à rapidez de raciocínio e ao espírito criativo, fariam dele um aluno brilhante. Fez os cursos primário e ginasial, período denominado hoje como Ensino Fundamental, no Colégio do Sagrado Coração de Jesus, na Al. Dino Bueno, no bairro dos Campos Elíseos, que baseava a formação escolar nos moldes dos padres salesianos, comparecimento obrigatório à missa dos Domingos e aos desfiles comemorativos aos feriados santificados. Desde o primário, foi sempre o lº da classe. No entanto, a responsabilidade de manter-se em primeiro lugar sobrecarregava-lhe emocionalmente, provocando-lhe crises hepáticas nos meses dos exames escolares. Para aliviar-lhe as tensões, Dona Diva, a mãe sempre atenta, impunha-lhe a mais inusitada condição de mãe para filho: “Se no mês que vem aparecer alguma nota dez na caderneta, você apanha e fica de castigo!”. Devota de Santo Antônio, queria o nome do santo num dos filhos. Sua devoção ultrapassava limites. Numa das procissões pelas ruas do bairro, Toninho participou, caracterizado com as vestimentas do santo... Como ele crescia pouco na primeira infância, passou a ser carinhosamente chamado pela mãe de “meu toquinho de gente”. E virou Toquinho, sem que ninguém conseguisse mudar.

Tendo sido aluna de violino na escola dirigida pelo Maestro Memore Peracchi, Dna. Diva tornou-se professora e depois trancou o instrumento no armário, onde o tempo e o desuso se incumbiram de desintegrá-lo. Num dia de faxina, baixou do armário a caixa do violino. A família se apressou ao redor daquela relíquia por tantos anos adormecida. A tampa envolta em bolor soltou-se da caixa, revelando um violino sem cordas, madeira encarapinhada, arco afrouxado. Um instrumento a decompor-se. Mesmo assim, iluminava os olhos do menino: “Foi minha primeira sensação da existência de um instrumento”, explica Toquinho. “Sempre tive vontade de ver o violino que minha mãe guardava lá em cima do armário. Foi a primeira vez que peguei num instrumento, mas num desses que facilitam a intimidade com as pessoas, que se pode levar para qualquer lugar, instrumentos que colam no corpo. A primeira vez que peguei num, foi naquele violino”.

A emoção de mexer pela primeira vez num violão deu-se alguns meses depois. Foi na casa da prima Cleize. Apesar de excelente pianista, Cleize ganhara do namorado um violão, mantido esquecido e encostado num dos cantos da casa. Era uma tarde de domingo de maio de 1953 e o Corinthians enfrentava o Vasco no Maracanã. Ouvidos colados no rádio, o Vasco fez um gol no finzinho do jogo e espremeu o coração do garoto corintiano. Toquinho refugiou-se no canto da casa onde estava o violão, mexeu em suas cordas: sons ilógicos, surpreendentes equívocos musicais. Olhava aquelas cordas e ficava imaginando: “Como é que pode sair tanta música só dessas seis cordas?” E botava outros dedos entre elas, tentando tirar outros sons. Foi a primeira vez na vida que teve contato com o violão. Foi naquele violão da Cleize.

“A música começou a entrar mesmo em minha vida através dos discos que meu pai comprava”, afirma Toquinho.  Seu Nico, como era conhecido o Antônio pai, não completara nem o ginásio. Portava uma sabedoria extraída da vida e guardava dentro dele amores a certas artes. Ia freqüentemente ao cinema, mesmo sozinho, nos espaços vazios de algumas tardes. Chegava a assistir o mesmo filme três ou quatro vezes. Tanto que, na quase rudeza de sua cultura,  ia colecionado discos de todos os gêneros e plantava em sua própria casa os primeiros tentáculos do talento de um dos filhos.

"Eu ouvia os discos do Luiz Gonzaga e sentia uma estranha euforia. Emocionava-me com a Ângela Maria cantando, com o Francisco Alves. E de repente estávamos almoçando com orquestrações do Ray Antony, Ray Coniff. Ou com aqueles clássicos italianos nas vozes de Beniamino Gigli, Gino Becchi. São canções que ainda circundam meus ouvidos. E muitas vezes se jantava com Chopin na vitrola...", completa Toquinho.

Essa influência tinha um avesso representado pela Nadir, a empregada. Seu radinho pendurado no trinco da geladeira, apoiado na janela da pia, na beira do fogão, no móvel da sala, na penteadeira do quarto espalhava por toda a casa as vozes de Anysio Silva, Orlando Dias, Nelson Gonçalves. "Eu gostava muito também do Vicente Celestino, com suas músicas dramáticas, tristíssimas, e ele tinha um vozeirão", confirma Toquinho. "Então, essas canções todas misturadas se constituíram nos primeiros parâmetros musicais que tive. Logo depois surgiram os sucessos de Neil Sedaca, Paul Anca, dos The Platters, e do mais famoso do século XX, o Elvis Presley, que chegava a influenciar até mesmo os Beatles. Mesmo aos domingos, eu ficava ouvindo a classificação da semana com interesse especial pelos primeiros lugares. Eu curtia tudo, lembro que já ouvia aquela marcha-rancho, Rancho das Flores com letra de Vinicius de Moraes para uma cantata de Bach. De tudo tirava alguma coisa boa".

"Foi meu pai quem me fez também reparar mais no Orlando Silva, um cantor mais refinado, interpretando músicas lindíssimas – esclarece Toquinho – Meu pai foi responsável por muitas dessas minhas atenções porque no fundo ele era muito musical, assobiava sempre afinado, eu reparava. Talvez ele tenha sido mais musical que minha mãe, em termos práticos, pois ele gostava mais de música do que ela. E precisava conviver com a música, utilizá-la. Nunca me esqueço quando ele projetava filmes de desfiles colegiais, usando como sonoplastia aquele hino lindo da marinha: “Qual cisne branco que em noite de lua/ Vai deslizando no mar azul...”. Esse hino me emocionava porque ele caía tão bem com a marcha daqueles colegiais vestidos de branco, uniforme do Liceu Coração de Jesus, e eu era um deles... Então, essas ligações com a música vêm sempre da parte de meu pai, a não ser o aspecto violino, referente à minha mãe.
 

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