quinta-feira, 11 de junho de 2015

A 11 de Junho de 1899 - É criada a Assistência Nacional aos Tuberculosos e a Liga Nacional contra a Tuberculose.



A medicina portuguesa, entre os finais do século XIX e, praticamente, meados da década de 40 do seguinte, sem quaisquer recursos farmacológicos para combater a tuberculose, voltava-se para o reforço das únicas medidas realmente eficazes: isolamento e prevenção, não só através da criação de centros hospitalares e sanatoriais, bem como da implementação de regras e estratégias sociais conducentes a melhorar as condições de vida, alimentação e higiene física e mental das populações.
Uma comunidade com hábitos saudáveis dificilmente poderá vir a ser um alvo da doença.
Não obstante o velho conhecimento, mais do que assente, entre os praticantes de medicina hipocrático-galénica e, provavelmente, até já entre os Egípcios Faraónicos, de que o clima de altitude é favorável à cura da tuberculose, só em 1854 Francisco António Barral publicaria o primeiro trabalho científico português “sobre o clima do Funchal e a sua influência no tratamento da tuberculose” e Brehmer, em 1856, viria a divulgar os seus estudos de carácter científico, sobre os benefícios do arejamento, do repouso em estabelecimentos fechados e da super-alimentação no tratamento da tuberculose. Assim, a partir de meados do século XIX, os sanatórios viriam a assumir um importante papel na luta anti-tuberculosa e, um pouco por todo o País, vão sendo construídos e postos a funcionar.
Na Ilha da Madeira, cujo clima era reconhecido, desde o século XVIII, como privilegiado para a cura da tuberculose, a Rainha D. Amélia, Ex-Imperatriz do Brasil, mandaria construir, em 1853, um hospital-sanatório, em memória a sua filha, a Princesa D. Maria Amélia, falecida no mesmo ano na cidade do Funchal, com 22 anos de idade, ceifada pela tísica, “ao que se julga, contagiada por seu pai, D. Pedro IV”, morto também pela doença. Em 1862, o hospital Princesa D. Maria Amélia, “destinado a tratar doentes afectados de tísica e outras moléstias pulmonares crónicas, que ainda possam ter esperança de melhora”, recebia já os seus primeiros doentes.
Na sequência de duas expedições à Serra da Estrela, realizadas entre 1881 e 1883, destinadas a estudar “as condições da mesma, com o objectivo de fundar nela sanatórios para tratamento da tuberculose pulmonar, à semelhança dos da Suíça”, viria a ser lançado um livro, prefaciado pelo Dr. Sousa Martins. Já nessa altura reconhecido como um clínico distinto e uma prestigiosa figura da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, as suas afirmações, realçando a importância das condições climatéricas e da altitude na cura da tuberculose, viriam a ter um enorme impacto, não só, sobre a opinião pública, como a nível político e sanitário. Deste modo, muito antes de ali surgirem as primeiras infra-estruturas oficiais, isto é, os hospitais-sanatórios, começaram a afluir à Guarda e à Serra da Estrela inúmeros tuberculosos, em busca dos referidos benefícios do clima. Esta enorme concentração de indivíduos afectados pela “tísica”, hospedados em casas particulares e nas poucas unidades hoteleiras da zona levaria a que doentes e não doentes tivessem que ficar alojados nos mesmos sítios, situação algo complicada, em termos epidemiológicos. Em 1894, as autoridades responsáveis pela higiene sanitária acabariam por impor como obrigatória a declaração de entrada de doentes em hotéis, bem como a desinfecção das casas onde os mesmos pernoitassem. Na mesma data, criava-se em Lisboa o 1º Posto de desinfecção e instituía-se como obrigatória a notificação de doenças infecciosas e, em particular, da tuberculose. Esta medida, porém, não teve, de início, grandes efeitos práticos, uma vez que a declaração só se verificava após a morte do doente. Por temor do estigma social, por razões morais ou por incúria, esta situação era frequente e, como tal, a tuberculose, enquanto ia ceifando uns, ia lançando as suas “sementes” noutros.
Preocupada com a grave situação epidemiológica que o País atravessava, a Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa “inaugurou então uma campanha de propaganda de combate à tuberculose, a que Miguel Bombarda, em a Medicina Contemporânea, deu a maior expansão, alvitrando-se a criação de uma liga que se propusesse a envidar todos os esforços nessa luta e ao estudo do problema da hospitalização dos tísicos. Desta iniciativa resultaria, finalmente, a Liga Nacional contra Tuberculose. Constituída por várias comissões, com sedes nas principais cidades do País, a L.N.T. viria a preparar e a realizar diversos congressos entre 1901 e 1907, com vista a debater o problema da tuberculose e a definir as melhores estratégias curativas e, sobretudo, profilácticas para o seu combate. Neste esforço, incluíram-se a formação e especialização de clínicos portugueses no estrangeiro na área da pneumo-tisiologia e a criação (construção ou adaptação) de centros hospitalares, especialmente localizados em climas marítimos e de altitude.