terça-feira, 16 de junho de 2015

A 16 de Junho de 1988 - Morre o pintor português João Hogan, 74 anos.


João Navarro Hogan nasceu em Lisboa a 4 de Fevereiro de 1914, no seio duma família de pintores. Frequentou o curso geral da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa de 1930 a 1931. Descrente no ensino académico, abandonou a escola. Certo da sua vocação de pintor, manteve-se auto-didacta, exercendo a pintura em paralelo com a marcenaria – sua profissão desde 1930 e por mais de 20 anos. Dessa activi¬dade apreendeu o rigor, precisão e premeditação, características que tanto marcarão o seu processo de trabalho como pintor. Aluno em 1937 de Frederico Ayres e de Mário Augusto nas aulas nocturnas da Sociedade Nacional de Belas Artes, foi em Van Gogh e em Cézanne que encontrou os seus primeiros verdadeiros mestres. Elegendo a paisagem como tema por excelência, interpreta-a exaustiva e obsessivamente durante cinco décadas – “A minha paisagem nasce dentro e debai¬xo da terra. O céu nunca me interessou, e às vezes até o corto” (João Hogan, 1985). Logo nos anos 30 colheu ensinamentos nos Naturalistas portugueses da 1ª geração e na pintura construída de Cézanne. Pintando ao ar livre nos arredores de Lisboa e mais tarde na Beira Baixa, cedo criou um estilo próprio, marcando um percurso isolado no panorama artístico nacional. De formas sólidas e rigorosas, construídas na busca da síntese, as suas paisagens inconfundíveis mostram um profundo inte¬resse pela vastidão e rudeza da terra. Representando lugares inabitados, imanam um silêncio cheio de significações, enfatizado pela ausência da figura humana. Nos anos 40 as paisagens, de cores fortes e contrastantes em largos planos mono¬cromáticos, têm ainda uma raiz naturalista. Na década de 50 tornar-se-ão mais sombrias, pela adopção duma paleta de terras, ocres e inúmeros verdes, que o pintor não mais abandonará. Participando em exposições colectivas a partir de 1942 e expondo individualmente desde 1951, Hogan percorreu nos anos 50 um período de experimentações. Motivado pela pintura dos expressionistas alemães produziu obras de expressiva força matérica, mas que revelam dificuldades na tentativa de introdução da figura humana na paisagem. Comungando das preocupações humanistas dos pintores neo-realistas, realizou ainda nessa década obras de teor mais social, representando locais de trabalho. Deste período experimental a sua pintura preservará o drama¬tismo e riqueza táctil da matéria, despindo a realidade de tudo o que é superficial. Em 1957 começou a trabalhar em gravura, sobre a influência de William Hayter, de quem foi aluno. Se as primeiras gravuras, realizadas em madeira, têm ainda um cunho realista, as gravuras em cobre – incluíndo o acaso proporcionado pelo ácido e influências do surrealismo – atingem um enorme grau de irrealidade, fantasia e mesmo humor. Dedicando-se até 1975 a esta técnica, criou uma obra extremamen¬te lírica, de enorme diversidade, verdadeiramente autónoma da obra de pintor. Sócio-fundador da Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses em 1957, aí dirigiu mais tarde cursos de gravura. Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris em 1958, viajou nesse ano, vendo pintura surrealista principalmente na Bélgica. Realizou a partir de 1960 ilustrações para livros. Em 1961 foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em Portugal. No início dos anos 60 a pintura de Hogan, de formas cada vez mais depuradas e sombrias, distanciou-se definitivamente do naturalismo, num processo a que não foi alheia a sua experiência de gravador. As suas paisagens, incluem elementos como pontes, pedreiras, caminhos, aquedutos, que progressivamente se simplifi¬cam até se tomarem quase abstractos. Abandonando a prática de pintura ao ar livre Hogan compõe, a partir desta altura, baseando-se em fotografias e slides que corta, selecciona, sobrepõe, conferindo mais do que nunca às suas paisagens o carácter de construção. Volumes arredondados de cores frias, por vezes transparentes, evocam paisagens irreais do fim do mundo. Escolhido em 1971 para realizar um dos quadros que decoram o café A Brasileira no Chiado, em Lisboa, formou em 1976 o grupo 5 + 1, que expôs nesse ano em Lisboa e em Viena, com os pintores Teresa Magalhães, Júlio Pereira, Sérgio Pombo, Guilherme Parente e o escultor Virgílio Domingues. Professor de pintu¬ra na ARCO entre 1976 e 1978 e de gravura entre 1979 e 1981 – data em que se aposentou – Hogan produziu pelos anos 80 dentro paisa¬gens que ele próprio vinha definindo como “de subconsciente”. Expôs individualmente em Lisboa cerca de 20 vezes, entre 1951 e 1958 e no Porto, em 1951, 1971 e 1973. Em 1983 realizou-se em Beja a 1ª Retrospectiva da sua obra. Participou ao longo da carreira em cerca de uma centena de expo¬sições colectivas no país, entre as quais: Exposições do Secretariado de Propaganda Nacional, de 1942 a 46; Exposições na Sociedade Nacional de Belas Artes, a partir de 1947; I, II e III Exposições de Artes Plásticas da F. C. Gulbenkian, em 1957, 1961 e 1986. Premiado com as 3ª e 2ª medalhas da Sociedade Nacional de Belas Artes em 1949 e 1950, recebeu ainda: I e II Prémios do Posto de Turismo da Costa do Sol, em 1956 e 1957; II Prémio na 2a Exposição de Artes Plásticas de Almada, em 1957; Prémio Lisboa em 1957; Prémio C.M. de Vila Real em 1958; Prémio José de Brito em 1959; I Prémio da Fundação Calouste Gulbenkian em 1961; Prémio Silva Porto em 1964; Menção Honrosa na Exposição Mobil de Arte, em 1970. Representou Portugal em mais de 40 exposições no estrangeiro, princi¬palmente em bienais de gravura. Morreu em Lisboa a 16 de Junho de 1988, sendo nesse ano homenageado na I Bienal de Gravura da Amadora. Em 1989, realizou-se na Galeria João Hogan, na Voz do Operário em Lisboa, uma Exposição Homenagem e em 1990 foi instituído o prémio João Hogan. Em 1992 a Fundação Calouste Gulbenkian organizou uma exposição antológica da sua obra.