terça-feira, 16 de junho de 2015

A 16 de Junho de 2005 -- Morre o médico Corino de Andrade, 99 anos, neurologista, professor universitário, investigador que identificou a paramiloidose ("doença dos pezinhos"), impulsionador do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar.



A Paramiloidose foi identificada por Corino de Andrade que observou doentes com sinais e sintomas que reputou de desconhecidos pela Medicina dos anos 30 e 40 do século passado. Dedicou-se à investigação e à prática clínica desta doença, o que lhe valeu distinções e reconhecimento mundial na área médica.
Nascido em Moura a 10 de Junho de 1906, o Prof.º Corino de Andrade terminou a licenciatura em Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa a 13 de Novembro de 1929.
Influenciado pelo seu professor de Neurologia, António Flores e após alguns contactos com Egas Moniz e Almeida Lima, aquando do seu estágio no hospital de Santa Marta, o Prof.º Corino de Andrade começa a interessar-se pela Neurologia, o que o levou a especializar-se em Estrasburgo com o Professor Barré, um dos grandes vultos da neurologia mundial à data.
Em 1933, o Prof.º Corino de Andrade torna-se o primeiro especialista não francês a receber o prémio Dejerine para ciências neurológicas.
Em 1938, regressa a Portugal e em 14 de Janeiro de 1939 assina contrato no Hospital Geral de Santo António, onde começa a trabalhar no serviço de neurologia.
É nesse serviço que pouco tempo depois aparece ao Prof.º Corino de Andrade uma mulher de 37 anos, residente na Póvoa de Varzim, que tinha a "doença dos pezinhos", assim baptizada pelo povo que bem sabia que o "mal" apanhava os pés e não deixava caminhar. A síndrome neurológica e a história clínica dessa mulher fazem o Prof.º Corino de Andrade pensar, desde logo, numa entidade patológica ainda não descrita.
Um olhar científico ligado ao método clínico é executado com tal perícia que lhe vale, incontornavelmente, a definição de uma entidade clínica autónoma, a Doença de Andrade. Mas o Prof.º Corino de Andrade tem a grandeza de assumir que "sábios são aqueles que procuram" e até à divulgação mundial da doença, em 1952, muitos passos dá procurando incessantemente a ordem e a desordem de uma doença por classificar, ou mal classificada.
Em Setembro de 1952 e pela primeira vez na íntegra, é editado na revista científica Brain o célebre artigo - A Peculiar Form of Peripheral Neuropathy (Brain, vol.75: 3, 408) - que lança definitivamente o Prof.º Corino de Andrade para um lugar de topo nas neurociências mundiais.
Em Outubro de 1975, é nomeado para a comissão instaladora do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, o qual veio dar um novo alento a gerações de alunos, professores e investigadores apaixonados por esta patologia.
Até à sua reforma do Hospital Geral de Santo António em 1976, o Prof.º Corino de Andrade manteve sempre as suas investigações, fundando o Centro de Estudos de Paramiloidose (CEP) em 1960, que dirige até 1988, ano em que completa 82 anos.
A sua actividade científica e cívica mereceu-lhe várias distinções ao longo da vida, entre as quais o Grau de Grande Oficial de Santiago de Espada (1979), a Grã-Cruz da Ordem de Mérito (1990), o Grande Prémio Fundação Oriente de Ciência e, em 2000, o Prémio Excelência de Uma Vida e Obra da Fundação Glaxo Wellcome.
Faleceu no Porto, em 16 de Junho de 2005.




“Cidadão de reconhecida intervenção cívica – fazendo muitas vezes questão de recordar que vivera os tempos da primeira e da segunda grandes guerras -, Corino de Andrade escapou ao nazismo mas não à polícia política (PIDE) do Estado Novo, que lhe moveu perseguições, no início da década de 1950, pelas suas convicções democráticas .

“Os meses que passei na cadeia serviram-me para muita informação e muita reflexão. Tirei disso muito proveito”, dizia ao JN em 1991.

Apoiou a candidatura de Nórton de Matos à Presidência da República. Como opositor ao Estado Novo, fez parte do núcleo de homens de ciência do Porto, entre os quais se destacaram figuras notáveis, como Abel Salazar e Ruy Luís Gomes. Por isso, ao lado do professor Nuno Grande – um dos principais impulsionadores da criação, na Universidade do Porto, do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) -, Corino de Andrade fez parte da respectiva Comissão Instaladora, entre 1974 e 1980.

Confessava-se agnóstico e admitia que a Terra há-de tornar-se um planeta morto. Afirmava pensar que não seria no Universo mais do que uma molécula era no seu corpo.”