sábado, 20 de junho de 2015

A 20 de Junho de 1963 - Morre, em Lisboa, Francisco Pulido Valente, 78 anos, médico, investigador e professor universitário, anti fascista, opositor da ditadura do Estado Novo.



Francisco Pulido Valente foi na sua época um notável médico e professor da Faculdade de Medicina de Lisboa. Defendeu tese em 1909 e dois anos depois, após concurso de provas públicas, foi nomeado médico efectivo dos Hospitais Civis.Foi assisente de Psiquiatria e especializou-se no estudo de doenças nervosas e Cliníca geral. Foi mobilizado para frança (1917) onde dirigiu os serviços de doenças infecto-contagiosas, inicialmente no Hospital de Cherville e depois no Hospital Militar de Hendaia e no da Base nº2. Regressando a Portugal, reassumia as funções anteriormente prestadas, ascendendo a professor catedrático e regendo a cadeira fundamental de Cliníca Médica.
Homem de grande cultura cientifíca, competência excepcional, visto como um renovador na Faculdade de Medicina. Representou Portugal em diversos congressos cientifícos e foi premiado por diversos trabalhos neles apresentados. Sempre viveu afastado da vida política militante, assumido republicano, destacou-se pela sua intrasigência na famosa greve académica do tempo de João Franco.Em Junho de 1947, determinado em Conselho de Ministros, foi-lhe retirada a cátedra por ser considerado desafecto à política de Estado Novo dedicando-se então à clínica particular.
Este grande clínico, um dos maiores do País, avesso a todas as formas de publicidade, é autor de vários e valiosos trabalhos de investigação. De entre eles assinale-se: Introdução ao Estudo da Histeria;A Etiologia e a Patologia da Paralisia Geral; Um caso de Actinomicose; Estudo Clínico e Experimental; Sobre Vinte e um Casos de Encefalite Letárgica.

Cronologia dos principias acontecimentos da vida do Prof. Francisco Pulido Valente

1884 - Francisco Pulido Valente nasce a 25 de Dezembro na Praça dos Restauradores nº33, Lisboa, filho de Maria Bela Pulido Valente e de Francisco Manuel Valente.
1901 - Frequentou o Liceu da Regaleira, em Lisboa (hoje sede da Ordem dos Advogados).
1903 - Passou algumas tardes na cervejaria Jansen, em Lisboa (onde, a partir de 1914, Fernando Pessoa e outros intelectuais darão início à revista "Orpheu"). É nesta altura que os dois colegas de escola se decidem pela medicina. Para Pulido Valente, a escolha foi feita depois de ser operado por Francisco Gentil. Talvez tenha sido a vertente humana deste médico que o atraiu na profissão. Aliás, as questões sociais, e as políticas a elas associadas, estarão sempre presentes na vida de Francisco Pulido Valente.
1904 -Fez parte, juntamente com Álvaro de Castro, Campos Lima, Carlos Amaro, Câmara Reis, Tomás da Fonseca e muitos outros, do corpo redactorial da revista Mocidade, em cujo nº1 da primeira série, com data de 1 de Novembro, tinha então 20 anos incompletos, publicou o artigo Geração Nova.
1907 - Foi um dos cabecilhas da greve académica juntamente com o seu cunhado Lucio Pinheiro dos Santos, os seus amigos Ramada Curto e os irmãos Américo e Carlos Olavo, durante a ditadura de João Franco.
1909 - Francisco Pulido Valente termina o curso de medicina na Faculdade de Medicina de Lisboa, defendendo tese sobre a histeria na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e faz acto grande em que é aprovado com 19 valores
1910 - Responsável pela divulgação, no jornal "República Portugueza", da tese que defende uma ditadura revolucionária contra o Governo Provisório.
1911 – Francisco Pulido Valente é nomeado médico efectivo da Junta Consultiva dos Hospitais Civis de Lisboa.
1912 – Em 4 de Janeiro deste ano é nomeado primeiro assistente provisório de 8ª classe, sendo colocado na cadeira de Psiquiatria sob a direcção do Prof. Júlio de Matos.
1913 – A 31 de Maio Francisco Pulido Valente casou com Maria da Conceição, filha de António Lúcio Santos e de Guilhermina Pinheiro dos Santos.
1914 – A 15 de Março nasce a sua filha primogénita, Maria Lúcia, em Lisboa, vivendo à data o casal na Rua Tomás Ribeiro. Esta sua filha vem a casar com Pedro Monjardino, médico obstetra introdutor do parto sem dor em Portugal.
1914 – 1917 – Frequenta os Laboratórios do Instituto Câmara Pestana, onde aprende e pratica as várias técnicas da bacteriologia e da parasitologia e onde faz trabalhos de investigação sobre a sífilis.
1917 – Em Julho, parte para a 1ª Guerra Mundial sendo colocado em França.
1917 – A 23 de Novembro nasce Francisco Eduardo, segundo filho do casal, em Lisboa.
1919 – Regresso a Portugal vindo da 1ª Guerra Mundial, retomando a sua carreira académica.
1919 – A 20 de Setembro é nomeado Segundo Assistente da 1ª Clínica Médica e a 23 de Dezembro é encarregado da regência do curso de patologia Médica.
1920 – A 25 de Janeiro nasce a sua filha Maria Helena que se liga por casamento à família Correia Guedes, ao casar com Julio Correia Guedes. Logo em Janeiro assume a regência da 1ª Clínica Médica e a Direcção dos respectivos Serviços Hospitalares. A 30 de Junho é nomeado Professor Livre. No mês de Julho apresenta o seu relatório sobre a actividade da 1ª Clínica Médica.
1921 – Profere a sua lição sobre paralisia geral e é nomeado Professor Ordinário de Patologia e Terapêutica Médicas.
1922 – A 23 de Março é encarregue da regência do curso de Terapêutica Médica, que rege até 1924/1925. A 24 de Dezembro nasce a sua terceira filha Maria Antónia que vem a casar com o médico Ângelo Pena, especialista de Otorrino.
1922 – 1923 – Neste período tem um papel decisivo na passagem pela Alemanha dos seus discípulos Cascão Anciães, Fernando Fonseca e Morais Cardoso, que por sua indicação vão trabalhar em clínicas e serviços dirigidos pelos maiores especialistas da época.
1923 – Em Setembro é transferido da cadeira de Patologia Médica para a de Clínica Médica.
1924 – Em Abril é encarregado da regência da 2ª Clínica Médica, em substituição do Professor Belo Morais. Entre Abril e Julho publica na revista Lisboa Médica as suas lições sobre diabetes. Em Agosto (no dia 21) nasce o seu filho Fernando que vem a ser o grande promotor da Fundação Francisco Pulido Valente, conservando muito do espólio do mestre. Embora com formação em engenharia este seu filho mantém uma ligação à medicina e revela um gosto especial pelas ciências básicas e a transversalidade do conhecimento (à semelhança de seu pai).
1925 – No mês de Março desloca-se, em comissão de serviço, a Copenhaga, em companhia de Cascão Anciães, para assistir a um congresso sobre o novo tratamento da tuberculose desenvolvido pelo Belga Professor Mollgaad (sanocrisina). Em Agosto publica, na revista Lisboa Médica a “Carta a um médico provinciano a propósito da sanocrisina” onde resume a sua opinião sobre o valor desse tratamento. Em Dezembro profere na Faculdade de Medicina de Lisboa a lição “As modernas ideias na patologia da tuberculose pulmonar”, comemorando o primeiro centenário da Régia Escola de Cirurgia de Lisboa.
1930 – Publica um artigo nos Arquivos do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana por ocasião da morte do seu director, Aníbal Bettencourt a quem o ligavam laços muito especiais pois aí realizou os seus trabalhos de investigação sobre a sífilis.
1935 – Francisco Pulido Valente acompanhou com muito interesse o projecto do novo Hospital Escolar. Neste ano respondeu, em nome da cadeira de Clínica Médica ao questionário da Comissão Técnica dos Hospitais Escolares sendo clara a sua visão do problema.
1936 – Em Março dirige uma carta ao Director da Faculdade de Medicina de Lisboa instando-o a que faça, junto dos poderes públicos, as diligências necessárias para que fique resolvida a questão do prossectorado do Hospital Escolar, contratando, para isso, o Professor Wohlwill. A 27 de Julho, vivendo a família na Rua S. Filipe Nery ao Rato, nasce o seu filho mais novo, José Maria, tendo Francisco Pulido Valente a bonita idade de 51 anos.
1938 – 1939 – Profere seis lições sobre electrocardiografia integradas em cursos de aperfeiçoamento. Do escasso espólio deixado pelo Professor Pulido Valente fazem parte textos manuscritos das mais variadas áreas. Estes manuscritos encontram-se na posse da Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa.
1943 – Em Julho publica, na revista Amatus Lusitanus o trabalho “Notas sobre a teoria da circulação normal e patológica I – Dinâmica arterial. A teoria de Windkessel”. Nesse mesmo ano em Outubro e na mesma publicação surge o trabalho “Sobre leucemias”.
1944 – Morre no dia 12 de Janeiro, com 26 anos, o seu filho, formado em Medicina, Francisco Eduardo.
1945 – Publica na revista Seara Nova a tradução de diversos escritos da Escola de Viena a propósito da polémica entre Egídio Namorado e Santana Dionísio, em seguimento à publicação do livro do primeiro, A Escola de Viena.
1947 – Em Junho é demitido do lugar de professor por decisão do Conselho de Ministros de 14 de Junho, Diário do Governo nº 138, 1ª série de 18 de Junho. Em Agosto é colocado na inactividade permanente aguardando aposentação.
1948 – No dia 25 de Março é publicada em Diário do Governo, com o número 70, a sua aposentação compulsiva.
1949 – Em Janeiro dá uma entrevista ao Diário de Lisboa em que critica os serviços de assistência médica, especialmente o funcionamento dos hospitais.
1952 – Em Maio desloca-se a Inglaterra para ser observado pelo especialista Terence Millin.
1954 – Em Dezembro, por ocasião do seu 70º aniversário, é homenageado pelos seus amigos e discípulos, cerimónia acompanhada pela publicação de um livro que contou com a participação dos seus principais companheiros de vida.
1956 – A amizade com Aquilino Ribeiro fica patente na correspondência que com ele mantém ao longo dos anos.
1957 – A ligação com Vitorino Nemésio motiva também alguma troca de correspondência.
1958 – Aceita o convite do General Humberto Delgado para fazer parte da Comissão de Honra da sua candidatura à Presidência da República. Neste ano, durante a campanha da candidatura do General Humberto Delgado e a instâncias do seu amigo Manuel Mendes, volta de novo a tomar posição política pública, consentindo pertencer à comissão de honra.
1963 – Depois de um período de doença surge uma complicação urinária que provoca a sua morte a 20 de Junho com 79 anos incompletos.