terça-feira, 7 de julho de 2015

A 7 de Julho de 1858 -- Nasce o escritor e filólogo José Leite de Vasconcelos, autor de "Lições de Philologia Portuguesa" e da antologia de "Textos Archaicos".



José Leite de Vasconcelos Pereira de Melo nasceu no seio de uma família aristocrata na aldeia vinhateira de Ucanha do concelho de Tarouca, a 7 de julho de 1858. Era filho de José Leite Cardoso Pereira de Melo (1810-1881) e de Maria Henriqueta Leite de Vasconcelos Pereira de Melo (1815-1894).
A infância e a adolescência foram passadas num meio rural rico em testemunhos históricos, que desde cedo despertaram o seu interesse pela observação das tradições e dos costumes locais.
Deixou a Beira para trabalhar no Porto, num liceu e num colégio, assim ajudando ao sustento da família e assegurando os seus estudos no Colégio de S. Carlos e, mais tarde, na Escola Médico-Cirúrgica do Porto.
Durante o curso de Medicina escreveu uma das suas primeiras obras - "Tradições Populares Portuguesas" - e editou o opúsculo "Portugal Pré-Histórico" (1885), possivelmente influenciado pelo Congresso de Lisboa, que se realizara em 1880.
Ao concluir o curso e após defesa da tese "A Evolução da Linguagem" (1886), Leite de Vasconcelos recebeu o "Prémio Macedo Pinto", destinado ao aluno mais brilhante. Assumiu, então, as funções de subdelegado de Saúde do Cadaval, onde tinha família, durante seis meses.
Exonerado desse cargo, tomou posse do lugar de conservador da Biblioteca Nacional em fevereiro de 1888. Durante os 23 anos em que trabalhou nesta instituição teve oportunidade de consolidar as linhas mestras da sua investigação e da sua produção literária. Leccionou cursos de Numismática e de Filosofia e deu início à edição da "Revista Lusitana" (o 1.º número data de 1887-1889).
Em 1901 doutorou-se em Filologia, na Universidade de Paris, defendendo a tese "Esquisse d’une dialectologie portugaise", que foi classificada com a menção de "très honorable". Por essa altura, encetou relações sólidas com figuras de prestígio e desenvolveu pesquisas em obras raras de bibliotecas estrangeiras. Na Biblioteca de Leiden descobriu "A canção de Sancta Fides de Agen", manuscrito medieval que publicou em 1902. Na Biblioteca Palatina de Viena de Áustria identificou o "Livro de Esopo", que editou em 1906.
Tendo por base o trabalho realizado na Biblioteca Nacional, empenhou-se na criação de um museu dedicado ao conhecimento das origens e tradições do povo português, projeto apoiado por Bernardino Machado, à época Ministro das Obras Públicas e responsável pela criação do Museu Etnográfico Português em 1893. Instalado inicialmente numa sala da Direção dos Trabalhos Geológicos, este museu foi transferido em 1900 para uma ala do Mosteiro dos Jerónimos. Inaugurado a 22 de abril de 1906, designou-se Museu Etnológico (atual Museu Nacional de Arqueologia), denominação que detinha desde 1897.
O acervo do museu foi crescendo em resultado de escavações arqueológicas e de campanhas etnográficas em todo o país, as quais eram noticiadas no "Archeologo Português", revista de prestígio publicada desde 1895. Entre os muitos colaboradores locais com quem Leite de Vasconcelos trocou informações, encontram-se figuras de renome da cultura portuguesa, como Manuel Francisco Alves (1865-1947), Abade de Baçal e autor da obra "Memórias Arqueológico-históricas do Distrito de Bragança", Augusto Mendes Correia (1888-1960), Ricardo Severo (1869-1940) e Rocha Peixoto (1866-1909).
Até aos 80 anos de idade fez inúmeras viagens em Portugal, visitou vários países europeus e deslocou-se ao Egito para participar no Congresso do Cairo de 1909, no qual presidiu à secção de Arqueologia Pré-Histórica. Estas digressões permitiram-lhe recolher material para o museu e criar laços de amizade com colegas portugueses e estrangeiros.
Em 1911 foi convidado a integrar o corpo docente da recém-criada Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa na qualidade de professor extraordinário de Filologia Clássica. Foi, assim, obrigado a abandonar a Biblioteca Nacional, embora mantendo a direção do Museu (anexado à FLUL em 1913). Nesta Faculdade lecionou disciplinas como "Numismática", "Epigrafia" e "Arqueologia". Em 1914 solicitou a Bernardino Machado que lhe fosse atribuída a categoria de professor titular desta última cadeira.
Em 1929 atingiu o limite de idade e aposentou-se. Em sua homenagem, o Museu Etnológico passou a ter o seu nome e Leite de Vasconcelos recebeu o título de diretor honorário. A partir dessa altura dedicou-se à escrita, na qual se salienta o projeto Etnografia Portuguesa publicado em vários volumes pela Imprensa Nacional. Foi agraciado com diversas distinções, como a grã-cruz da Ordem de Instrução Pública e Benemerência, a Comenda da Legião de Honra (1930), de França, e a grã-cruz da Ordem Militar de Santiago da Espada (1937), a que se juntaram muitas outras, alcançadas ao longo da sua carreira, como a de correspondente do Instituto de França (1920).
José Leite de Vasconcelos morreu em Lisboa a 17 de maio de 1941, na companhia de amigos, deixando atrás de si uma monumental e multifacetada obra sobre o "Homem Português", com trabalhos de fundo nas áreas da etnografia, filologia, arqueologia, numismática e epigrafia. Foi autor, também, de poesia e do maior epistolário português (24.289 cartas de 3.727 correspondentes, editadas em 1999), produto da imensa rede de contactos que estabeleceu ao longo da vida.
Este vulto maior da cultura portuguesa contemporânea foi um grande erudito, professor exigente e eterno celibatário. Viveu de forma simples e austera, sensível e solidário com os mais desfavorecidos. Nutriu grande carinho pelos animais, em especial por gatos.