quinta-feira, 8 de outubro de 2015

OPINIÃO DE JOÃO SOARES ACERCA DA POSSÍVEL UNIDADE DE ESQUERDA EM PORTUGAL


Amigos fizeram-me chegar hoje a estranheza com que me ouviram defender, depois de apurados os resultados das eleições, um entendimento entre PS, PCP e BE para a formação de um Governo, com o apoio de uma maioria absoluta na AR. São, claro, naturais e legitimas as duvidas quanto à possibilidade de um entendimento entre PS, PCP e BE. Ele nunca existiu, em quarenta anos de democracia, a nivel governamental. Já não é tão legitima a estranheza de amigos quando à posição que assumi, com toda a clareza e em perfeita consciencia. Também, claro, nos orgãos proprios do PS. Sempre, e desde há muitos anos, exprimi a minha repugnancia pelo abstruzo conceito, de matriz anti-democratica, do chamado "arco governativo". Invoquei, dezenas de vezes ao longo dos ultimos anos, a celebre frase de Orwell no "Animal Farm" (de que fui editor em Portugal) para ilustrar o partido que a direita soube sempre tirar da idea de que somos todos iguais mas há alguns mais iguais que outros. Ao contrario de muitos da minha geração, nunca fui comunista. De nenhum dos matizes das muitas correntes e organizações comunistas que existiram e existem na nossa terra. Conheço razoavelmente a historia do movimento comunista internacional e do PCP. E até conheço bem o PCP, no trabalho em comum, ao longo de doze anos. Numa coligação de esquerda que conquistou à direita e governou, com reconhecido sucesso até no plano da gestão financeira, a cidade de Lisboa. Não foi, passe a imodestia, coisa pouca. Tenho, claro, algumas serias divergencias filosoficas e ideologicas com os comunistas. Isso não nos impediu de trabalharmos juntos, com equilibrio e no escrupuloso respeito pelas regras democraticas, a bem do povo e da cidade de Lisboa. Aquilo que aqui quero deixar agora, como testemunho pessoal fundado na minha propria experiencia de trabalho em comum, é que os comunistas com quem trabalhei e o PCP com quem estive coligado, enquanto socialista militante e dirigente do PS, são portugueses honrados, trabalhadores empenhados e dedicados, que respeitam a palavra dada e honram os compromissos que assumem. Não são, na minha modesta opinião fundada também na observação e vivencia pessoal, hoje, nem serão no futuro, nenhuma ameaça ao nosso sistema democratico e às suas regras. Mais, são, também o tenho sublinhado muitas vezes, um dos mais importantes garantes de respeito pela preservação da ordem publica, mesmo no decurso dos mais acirrados protestos politicos ou sindicais. Nesta hora tão importante que estamos a viver, quiçá como desejo o dobrar de um cabo historico que das tormentas se transforma em boa esperança, deixo-o aqui, como contributo pessoal para a desejada unidade da esquerda. Na perspectiva de formação de um Governo de unidade de esquerda que, num mandato estavel de quatro anos de maioria parlamentar solida, ponha fim ao desgoverno da direita. Governo de direita que tanto mal fez aos portugueses e a Portugal.