domingo, 6 de dezembro de 2015

A 06 de Dezembro de 1923 - Nasceu Urbano Augusto Tavares Rodrigues



Urbano Augusto Tavares Rodrigues nasceu em Lisboa a 6 de dezembro de 1923 e morreu em Lisboa a 9 de agosto de 2013, foi um escritor e jornalista português, militante do PCP.
Há uma biblioteca em Moura com o seu nome.
Nascido em Lisboa, Urbano Tavares Rodrigues foi criado em Moura, no seio de uma família de agricultores, de tradição intelectual e republicana, sendo o seu pai o ilustre jornalista e escritor Urbano Rodrigues. A influência das gentes do campo viria a marcar indelevelmente a sua obra escrita e as suas opções de classe e a sua entrada para o PCP. É irmão do jornalista e comunista Miguel Urbano Rodrigues.
Após os estudos liceais, ingressou na Faculdade de Direito de Lisboa, mas viria no ano seguinte a optar por Letras.
Licenciado em Filologia Românica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1949, e após isso os fascistas impediram-no de leccionar na Faculdade, pelo facto de ser militante do Partido Comunista Português.
Foi então que se estabeleceu em França, onde foi leitor de português nas universidades de Montpellier, Aix e Paris (Sorbonne), até ao ano de 1955.
Em seguida dedicou-se ao jornalismo e à docência no ensino secundário, nomeadamente no Liceu Camões.
Em 1958 é finalmente admitido como assistente da Faculdade de Letras de Lisboa, porém afastado logo no ano seguinte, em virtude do seu apoio à candidatura presidencial de Humberto Delgado.
Seguir-se-á uma consistente atividade de oposição ao fascismo, que três vezes o leva aos calabouços da PIDE e à prisão, a primeira das quais após ter subscrito o Programa para a Democratização da República, em 1961.
Retomando a sua carreira académica, após o 25 de abril de 1974, obteve dez anos depois (1984) o doutoramento em Literatura, com uma tese sobre a obra de Manuel Teixeira Gomes.
Em 1993 jubilou-se como professor catedrático da Faculdade de Letras. Foi igualmente professor catedrático na Universidade Autónoma de Lisboa Luís de Camões. Foi membro efetivo da Academia de Ciências de Lisboa e membro correspondente da Academia Brasileira de Letras.
Autor prolífico, figura como um dos mais prestigiados escritores da segunda metade do século XX em Portugal, sendo a sua obra marcada pela consciência do indivíduo face a si mesmo e aos outros, até ao reconhecimento de uma identidade social e política.
Além de romances, escreveu em diversas revistas e jornais, como o Bulletin des Études Portugaises, a Colóquio-Letras, o Jornal de Letras, Vértice, Nouvel Observateur, entre outros.
Foi diretor da revista Europa e crítico de teatro d' O Século e do Diário de Lisboa. Enquanto repórter percorreu grande parte do mundo, tendo reunido os seus relatos de viagem nos volumes Santiago de Compostela (1949), Jornadas no Oriente (1956) e Jornadas na Europa (1958).
No Cairo, em 1956, viveu a sua coroa de glória como jornalista, captando em crónicas para o "Diário de Lisboa" toda a complexidade da crise do Suez e das posições de Nasser.
Militante comunista, Urbano afirma que a sua obra foi influenciada pelo existencialismo francês da década de 1950; mais tarde, na sequência da sua prisão no forte de Caxias, durante o fascismo, surge como autor da literatura de resistência, a que se seguiu um novo período, mais optimista, no pós-25 de Abril.
Recebeu variados galardões literários, como o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa, com a obra Uma Pedrada no Charco — é de salientar que o seu pai, Urbano Rodrigues, já tinha vencido este prémio na edição do ano de 1948, com a obra O Castigo de D. João —, o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários, o Prémio da Imprensa Cultural, o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores e o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco.
A 19 de Janeiro de 1994 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e a 6 de Junho de 2008 com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.
Em 6 de agosto de 2013 foi internado no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, onde morreu três dias depois.
Intelectual, autor de uma vasta obra literária que abarcou todos os domínios da escrita – romance, novela, conto, teatro, poesia, crónica, ensaio, jornalismo e viagens –, Urbano Tavares Rodrigues é uma das referências mais intensas da literatura portuguesa dos séculos XX e XXI e deixa-nos um legado inestimável para futuras gerações de escritores.
Urbano Tavares Rodrigues possuía um conjunto de qualidades humanas que raramente se observam concentradas numa mesma pessoa, cujos valores sempre nortearam a sua vida – a liberdade, a justiça social, a paz, a solidariedade, a fraternidade –, qualidades que estiveram sempre presentes na sua obra e na sua intervenção social e política, que fizeram dele um resistente e um combatente pela liberdade e por uma sociedade mais justa.
Membro do PCP desde muito cedo, desde logo desenvolveu uma intensa actividade política que se prolongou ao longo de toda a sua vida.
Apesar de preso três vezes pela PIDE, impedido de leccionar na Faculdade de Letras de Lisboa e noutros estabelecimentos de ensino e de ter sido o escritor português com mais livros apreendidos pela PIDE, Urbano Tavares Rodrigues – como escreveu José Casanova no Avante! do dia 13 de Agosto de 2013 – «nem perseguições, nem ameaças, nem prisões, nem torturas, o fizeram abrandar, sequer, a sua prática de resistência».
Tal como muitas vezes destacou, o Alentejo esteve sempre presente na sua obra literária, mas também nas suas opções política e partidária, numa relação que o próprio confirmou quando escreveu: «Na adolescência comecei a tactear a vida, a dar pelas injustiças sociais mesmo ao meu lado, a crescer entre cheiros e sons, visões, bem diferentes, mas misturados, do paraíso e do inferno. Sentimentos em guerra nasciam dentro de mim e aos meus momentos contemplativos do fim do dia, após as horas de estudo ou os passeios pela beira do Ardila, a pé ou a cavalo, sucediam-se interrogações sem resposta (...). O que é bem certo é que o prazer da escrita tenho-o conhecido sobretudo ao evocar, ao reiventar, ao escrever o Alentejo, o que pode parecer paradoxal, já que algumas destas estórias são negras, dramáticas, como o destino do povo junto ao qual cresci e com quem abri os olhos para a vida.»
No legado de Urbano Tavares Rodrigues encontraremos exemplos suficientes para percebermos que os direitos defendem-se, lutando por eles e exercendo-os, porque não são dados adquiridos.
Urbano acreditava que «não será posta em causa, nem traída, decerto, uma constituição democrática e avançada, que consagra as nacionalizações, a reforma agrária, o controle operário, as liberdades que conquistámos e pelas quais nos bateremos, todos os democratas que lutámos contra o fascismo antes e depois da gloriosa arrancada dos capitães do MFA».
É com mágoa que na Primavera de 1977, ao rever este texto, «constato que o meu optimismo de um ano antes está ser desmentido pela realidade». Afinal, as liberdades de um ano antes não são dados adquiridos, há que lutar por elas constantemente.