domingo, 22 de janeiro de 2017

A 22 de Janeiro de 1905 - «Domingo Sangrento»

Foto de Carlos Carvalho.

112º Aniversário do Massacre de São Petersburgo pelo Czar!

No início do século XX, confirmando a genial previsão de Marx, o centro do movimento operário revolucionário tinha-se deslocado para a Rússia, país que se havia tornado, igualmente, num dos principais centros das contradições inter-imperialistas e no elo mais débil de todo o sistema.
Com a revolução de 1905 o proletariado da Rússia, pela dimensão e natureza da sua luta, tornou-se na vanguarda do movimento revolucionário mundial, realidade que não é separável do facto de se ter criado na Rússia um partido revolucionário de novo tipo, cuja acção assegurou a hegemonia do proletariado na vasta movimentação de massas que se desenvolveu (só em Janeiro, o primeiro mês do começo da revolução, o número de greves aumentou dez vezes), pondo em movimento milhões de operários e camponeses, aproximando a luta por transformações de carácter democrático-burguês da luta por transformações de carácter socialista.
Para Lénine, ainda que tenham sido os acontecimentos de Outubro (greve geral que paralizou praticamente toda a Rússia, mobilizando mais de 2 milhões de trabalhadores), com os quais, no seu dizer, «a classe operária da Rússia desferiu o primeiro golpe poderoso na autocracia tsarista”, e a insurreição da classe operária de Moscovo, em Dezembro, os aspectos mais marcantes da revolução, de tal forma que os classificou de «um passo memorável na luta histórica mundial da classe operária», a revolução começou no dia 22 de janeiro de 1905, com o «Domingo Sangrento», nome pelo qual ficou conhecido o massacre de operários perpetrado pelas tropas tsaristas, quando «milhares de operários – não social democratas, mas crentes, súbditos fiéis – conduzidos pelo padre Gapone» se dirigiam pacificamente para o Palácio de Inverno para implorar junto do Tsar, «seu senhor», uma vida melhor e mais liberdade.
A petição que os operários pretendiam entregar nesse dia 22 de janeiro de 1905 ao tsar, e que havia sido discutida e aprovada em reuniões de massas, revelava, por um lado, ingenuidade e mesmo ignorância política ao imaginar que o papel do senhor todo poderoso da Rússia se distinguia das classes dominantes, mas, por outro lado, reflectia o ambiente da luta reivindicativa da classe operária que varria na altura a velha Rússia.
Dizia a petição: «Nós, operários, habitantes de Petersburgo, vimos junto de ti. Nós – escravos miseráveis e humilhados – somos esmagados pelo despotismo e pela arbitrariedade (...) Nós, os milhares aqui presentes, assim como todo o povo russo, estamos privados de qualquer espécie de direitos humanos. Os Teus funcionários reduziram-nos à situação de escravos».
A petição enumerava todo um conjunto de reivindicações económicas, sociais e políticas que, pela sua natureza, punham em causa o sistema e não poderiam nunca ser alcançadas pacificamente.
Mas essa foi a amarga experiência que milhares de operários aprenderam por experiência própria após o massacre do «Domingo Sangrento».
No conjunto das reivindicações destaca-se: amnistia, liberdades cívicas, salário razoável, entrega progressiva da terra ao povo, convocação de uma Assembleia Constituinte por sufrágio universal e igual, terminando com o seguinte apelo: «Senhor! Não Te recuses a ajudar o Teu povo! Destrói a muralha que Te separa do Teu povo! Providencia para que seja dada satisfação aos nossos pedidos, faz esse juramento, e Tu tornarás a Rússia feliz; se não, nós estamos prontos a morrer aqui mesmo. Só temos dois caminhos: a liberdade e a felicidade ou o túmulo.»
O aviso ao tsar e às classes dominantes estava feito.
É possível que os massacrados frente ao Palácio de Inverno, nesse trágico dia 22 de Janeiro de 1905, não imaginassem que iriam encontrar aí o seu túmulo, mas o sacrifício das suas vidas não foi em vão.
Doze anos mais tarde, a classe operária russa dirigiu-se novamente ao Palácio de Inverno. Mas dessa vez já não para implorar às classes dominantes uma vida melhor, mas para tomarem o poder, criando a possibilidade de construir pelas suas próprias mãos uma vida digna e de liberdade, confirmando-se as previsões de Marx e Engels que, avaliando o desenvolvimento revolucionário na Rússia, concluíram que a futura revolução a realizar-se aí teria uma enorme ressonância e seria «um ponto de viragem na história universal».
Lénine estudou atentamente, ao longo dos anos, as experiências da revolução de 1905, enriquecendo o arsenal teórico do movimento revolucionário.
A análise feita por si dos acontecimentos do «Domingo Sangrento» é um trabalho notável, exemplificativo do seu método de trabalho, da análise concreta das situações concretas, da busca do essencial e determinante no emaranhado dos factos, por vezes contraditórios.
Onde alguns pseudo-revolucionários e pessoas «altamente cultas» só viam na acção da classe operária nesse acontecimento, desespero, religiosidade e ignorância, Lénine via nos «operários incultos da Rússia pré-revolucionária» um enorme potencial de luta, o despertar da consciência política, sendo precisamente neste despertar de uma quantidade colossal de massas populares para a consciência política e para a luta revolucionária que, segundo ele, residia «o significado histórico do 22 de Janeiro de 1905».