Força da água arrasa Funchal
Homens, mulheres e crianças presas no meio da água, sem forças para lutar contra a torrente de lama. Carros arrastados como se não tivessem peso. Pessoas em choque, incapazes de acreditar no que tinham diante dos olhos. Estradas interrompidas. Derrocadas. Inundações. O corpo de uma criança preso no entulho na rua da Pena, no Funchal. Uma freguesia – Curral das Freiras – que ao princípio da noite de ontem permanecia isolada e sem comunicações. Não há memória de um temporal assim na Madeira.
As ribeiras de João Gomes, Santa Luzia e Santo António, no Funchal, transbordaram e cobriram de lama e destroços as ruas. Houve quem tivesse visto, impotente para ajudar, pessoas serem arrastadas pela fúria das águas. Um homem contou ter encontrado um cadáver a boiar junto à garagem quando pelo meio-dia saiu de casa. Uma mulher relatou o desespero de um turista, que lhe entrou em casa levado pela água, que tinha ido dar uma volta de táxi com os familiares e lhes perdera o rasto.
Funchal e Ribeira Brava foram os concelhos mais sacrificados pelo temporal, cuja aproximação levara, na véspera, o Instituto de Meteorologia a emitir um alerta de mau tempo. Maria João Frada, meteorologista, assegurou ontem à tarde que o pior já tinha passado. Hoje são esperados aguaceiros e vento moderado.
APONTAMENTOS
NOTÍCIA NA EUROPA
‘El Mundo’, ‘El País’, Sky News, BBC, ‘Le Monde’, ‘Le Figaro’e RAI foram alguns dos principais media europeus que destacaram a tragédia na Madeira.
EUA E VENEZUELA
O canal americano CNN noticiou as mortes na Madeira, tal comoo canal Al Jazeera. A tragédia teve destaque também nas principais rádios e televisões da Venezuela.
ORDENAMENTO EM CAUSA
Construções em leitos das linhas de água, lixo, terras e entulhos despejados dentro das ribeiras e a impermeabilização cada vez maior do solo são os erros de ordenamento do território que o dirigente nacional da Quercus, Helder Spínola, aponta como tendo potenciado a catástrofe. Eduardo Ventura, professor universitário de Geografia, nota que, embora o ordenamento do território seja decisivo, "há sempre vulnerabilidades associadas à ocupação [do mesmo]".
DISCURSO DIRECTO
"DAR APOIO AOS VIVOS": Guilherme Silva, Deputado madeirense do PSD
Correio da Manhã – Que avaliação faz dos danos?
Guilherme Silva – Os danosmateriais são de grande extensão, no valor de muitos milhões de euros. Mas, obviamente,o número de mortos é o que mais lamentamos.
– Esta catástrofe podia ter sido evitada?
– Era impossível evitar esta catástrofe natural. Foi um fenómeno imprevisível e podia ter sido muito pior se não tivessem sido feitas, há uns anos, obras nas ribeiras.
– Qual a vossa prioridade neste momento?
– Dar apoio aos vivos. Depois pedir o apoio à União Europeia. Contamos com o compromisso de solidariedade assumido pelo primeiro-ministro.
EMIGRANTES AFLITOS SEM NOTÍCIAS
Os madeirenses emigrados na Venezuela estavam ontem ao final da tarde em grande aflição por não conseguirem contactar os familiares. "Já tentei ligar para os telemóveis e para os números fixos mas não consegui. Há sempre uma mensagem a dizer que de momento não é possível completar a ligação", lamentou Filomena Teixeira. No Centro Português de Caracas reuniram-se vários portugueses, que não escondiam a tristeza. "QueJesus os esteja a ajudar", esperava Maria Ana da Silva, com familiares no Funchal e na Ribeira Brava.
PEDIDO À UE TEM PRAZO
O presidente do Governo da Madeira, Alberto João Jardim, afirmou ontem que a prioridade será "tratar dos vivos". Salientou também que o seu executivo, na sequência de uma conversa com Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, já estava a elaborar um relatório para pedir fundos à União Europeia.
Ao que o CM apurou, a Madeira só poderá receber fundos da UE se o Governo pedir um relatório no prazo de dez semanas ao Grupo de Intervenção em Catástrofes (GIC).
Integrando a Câmara Nacional de Peritos Reguladores, o GIC é a única entidade acreditada junto da União Europeia para avaliar danos em situação de catástrofe.
Rui de Almeida, presidente daquele organismo, explicou ao Correio da Manhã que "Portugal tem desperdiçado muito dinheiro". Não só porque não tem elaborado este tipo de relatórios, mas também porque a "não-avaliação pelos peritos dá azo a muitas fraudes".
Na quinta-feira passada, Almeida alertou o Presidente da República para o facto de o GIC não ter sido chamado para avaliar os danos provocados pela catástrofe na zona do Oeste e que por isso os agricultores poderão não receber qualquer auxílio.
Isabel Ramos/P.S
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