Diário da República: Oliveira Salazar cai da cadeira em 1968
O centenário da implantação da República celebra-se em 2010. Nas próximas semanas, a Renascença, em parceria com a Biblioteca Nacional, vai relembrar cada um dos cem anos desde que a República se fez ver em Portugal. O primeiro texto será relativo a 2009 e, nos dias seguintes, segue a contagem decrescente, até se chegar a 1910. Hoje recorde o essencial de 1968.
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Só um mês depois da queda admitiu que estava doente e no dia 6 foi internado para ser submetido a uma cirurgia craniana. No pós-operatório, teve um AVC – Acidente Vascular Cerebral e nunca mais melhorou.
A 26 de Setembro, o Presidente Américo Thomaz falou à Nação e, “em nome dos superiores interesses de Portugal”, revelou a decisão de exonerar Salazar e nomear Marcelo Caetano como primeiro-ministro. Marcelo tomou posse no dia seguinte e assumiu uma atitude humilde ao afirmar que nunca se consideraria à altura das gravíssimas responsabilidades daquele momento histórico e de substituir um “génio” que esteve 40 anos à frente do País. Os portugueses teriam de se adaptar, avisou Marcelo Caetano.
Para o novo Presidente do Conselho, a prioridade era assegurar a normalidade da vida nacional. E lembrava que todos tinham de estar unidos e cerrar fileiras, porque o Mundo tinha os olhos postos em Portugal. Momentaneamente, protagonizou uma certa “abertura” política, mas depressa retomou o estilo de Salazar.
1968 revisitado
- Em Novembro, Marcelo Caetano dirigiu-se pela primeira vez à Assembleia Nacional na qualidade de Presidente do Conselho. Para o correspondente do Financial Times, Marcelo tinha inaugurado “um novo estilo e muita coisa tinha mudado em Portugal no período de dois meses”. Revelava que o chefe do Governo português abrandou as severas normas da Censura, permitiu que o líder oposicionista Mário Soares regressasse de S. Tomé e recebeu petições de grupos da Oposição que pediam reformas. No sector do trabalho, Marcelo tinha autorizado a realização de eleições livres nos sindicatos. “Mas na questão ultramarina”, concluía o jornalista, “a política de Caetano é a mesma de Salazar”.- Nesse mesmo dia, Portugal voltou a ser condenado nas Nações Unidas por causa da Guerra Colonial. Em resposta, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira, assegurou que a política ultramarina não se alteraria e que a ONU tinha cada vez menos credibilidade. Por isso, “não valia a pena ter em conta qualquer Resolução daquela organização internacional”.
- Em Março, Mário Soares foi deportado para S. Tomé. Salazar, ainda Presidente do Conselho, estaria “farto de ser incomodado” pelo advogado oposicionista que desde 1957 defendia os presos políticos, que em 1965 se ofereceu à família de Humberto Delgado para tratar do caso da morte do “General sem Medo” e que em 1967 tinha prestado informações a jornais estrangeiros sobre o “Escândalo Ballet Rose”. Soares foi preso pela PIDE e libertado sem instrução do processo em Março de 1968. Poucos dias depois, foi deportado para S. Tomé, onde ficou até Novembro.
- No fim de Agosto, a DATSUN- NISSAN iniciou em Setúbal a montagem de automóveis do grupo automóvel japonês. Foi a Entreposto Comercial que conseguiu instalar a única unidade europeia em Portugal. A fábrica era em Setúbal, mas por todo o País havia uma extensa rede de agentes para venda e assistência aos clientes. E passou a ser frequente ver diversos modelos da DATSUN pelas estradas portuguesas.
- No fim do Verão, muito eram os portugueses que andavam entusiasmados com o “glamour” das estrelas internacionais que visitavam o País para participar nas festas de dois multimilionários estrangeiros que tinham casa em Portugal. A festa de Pierre Schlumberger foi a 4 de Setembro e a de Antenor Patino no dia 6. Príncipes e princesas, aristocratas, actores e actrizes, músicos, enfim, uma selecção do "jet set" internacional, a que se juntaram também alguns notáveis portugueses, encantaram as populações que muito faziam para os ver passar e entrar nas quintas onde tiveram lugar as festas. Gina Lollobrigida, Ira de Furnstenberg, Zsa Zsa Gabor, Audrey Hepburn foram apenas algumas das personalidades que estiveram em Portugal. Atrás do "jet set" internacional veio um batalhão de jornalistas estrangeiros que – tal como pretendia o Governo – fez “publicidade” às belezas naturais do País, atraindo potenciais turistas, de preferência ricos. E desviou as atenções de outros assuntos mais melindrosos.
- E para quem estava interessado noutras vistas, o Jardim Zoológico de Lisboa anunciava que era “o mais belo da Europa”, “ a maravilha de Lisboa”, “a sucursal da Arca de Noé”. Esperava pela visita de todos. Os adultos pagavam 4$50 de entrada (cerca de 20 cêntimos).
- Em Novembro, teve lugar o I Curso Nacional de Jornalismo, organizado pelo Sindicato de Jornalistas. Perante o ministro das Corporações, Gonçalves Proença, o presidente do Sindicato (corporativo) Pereira da Costa lembrou que Portugal era um dos poucos países que não tinha instituído o ensino do jornalismo, “uma profissão que já não era para amadores”. E sublinhava que 20% dos que tinham entrado na profissão nos últimos dois anos já eram universitários. Neste mesmo mês, a Câmara Municipal de Lisboa aprovou por unanimidade a venda de terrenos aos dois clubes da capital – Benfica e Sporting – a preços baixos. A autarquia considerou que era o justo reconhecimento pelos altos serviços que tinham prestado à cidade e ainda lhes atribuiu um subsídio para a conclusão e apetrechamento dos respectivos parques desportivos. O Benfica recebeu 15 mil contos e o Sporting 12 mil.
Ana Carrilho / José Miguel Sardica
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