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sábado, 25 de setembro de 2010

Eles proclamaram a República

Eles proclamaram a República

por LUMENA RAPOSOHoje
Eles proclamaram a República


Na madrugada de 5 de Outubro de 1910 terminava a monarquia em Portugal. Tratou-se de um fim anunciado - os próprios monárquicos consideravam que um golpe, ou uma revolta, estaria iminente. O resultado da revolução, em que participaram civis organizados e um importante núcleo de militares, esteve incerto durante a noite de 4 para 5 de Outubro. Esta incerteza levou ao suicídio de um dos heróis da Revolução - Cândido dos Reis, o homem que é considerado como o chefe militar do momento. Na manhã seguinte, alguns dirigentes republicanos acompanham José Relvas, que, na varanda dos Paços do Concelho em Lisboa, proclamou o novo regime. Contrariando as expectativas, a Primeira República vai revelar-se, afinal, um tempo conturbado, com cisões entre as figuras políticas mais significativas do momento. Muitos republicanos da primeira hora desiludem-se com o radicalismo que se afirma, sucedem-se os chefes de Estado e as ameaças à estabilidade do regime e do País



Manuel de Arriaga: primeiro presidente

Ilhéu A 8 de Julho de 1840, na Casa do Arco no centro da cidade da Horta, nascia Manuel de Arriaga Brum da Silveira. Este filho de uma das famílias abastadas - e pretensamente aristocratas - da ilha do Faial, nos Açores, seria décadas mais tarde o primeiro presidente constitucional do Portugal republicano (1911- -1915). Em 1860, Manuel de Arriaga deixa os Açores a caminho de Coimbra, onde se matricula em Direito e se afirma como aluno excelente e um orador brilhante. É também em Coimbra, de cuja universidade chegou a ser reitor durante alguns meses, que entra em contacto com as ideias republicanas às quais adere de imediato - uma decisão que vai repercutir-se na vida familiar: o pai, monárquico conservador convicto não só corta relações com Manuel de Arriaga como o proíbe de regressar a casa. Deputado desde 1882, aquando da revolta de 31 de Janeiro de 1891, Manuel de Arriaga é já um elemento do Directório Republicano. Foi um dos principais autores do programa que o Partido Republicano apresentou nesse ano ao eleitorado. Manuel de Arriaga, que já antes se desiludira com a vida parlamentar, opta por renunciar ao cargo de presidente quando, a 13 de Maio de 1915, é derrubado o Governo de Pimenta de Castro.


José Relvas: a voz que proclama a República

Moderado Como mais antigo membro do Directório do Partido Republicano Português - instituição que o partido criara em 1909 para preparar a revolução - José Mascarenhas Relvas é o homem escolhido para proclamar ao País a implantação da República. Fá-lo, às 09.00 do dia 5 de Outubro de 1910, a partir da janela dos Paços do Concelho, em Lisboa. Nascido a 5 de Março de 1858, na Golegã, Relvas - que termina o seu curso superior de Letras com a tese O Direito Feudal - é já um homem adulto quando se empenha na política, cujos excessos, nomeadamente o anticlericalismo, acabam por desiludi-lo profundamente. Porque, este homem - que o historiador Joaquim Veríssimo Serrão classifica como "carácter impoluto" - é um aristocrata latifundiário moderado, cujo entusiasmo nos comícios partidários não pode ser confundido com excessos. Como ele próprio registará nas suas Memórias Políticas. Mas o papel político de José Relvas não se limitou a proclamar a República: antes da revolução foi enviado a França e a Inglaterra, em "missão diplomática dos revolucionários"; depois, como ministro das Finanças do Governo Provisório, conseguiu equilibrar as contas públicas do País.

Brito Camacho: médico e jornalista

Rebelde, corre o ano de 1893 quando Manuel de Brito Camacho se candidata a deputado, nas listas republicanas e pelo círculo de Beja. É eleito mas não toma posse: um seu artigo a criticar as instituições monárquicas valeu-lhe a suspensão do cargo e o exílio nos Açores. Brito Camacho, que nascera em Aljustrel a 12 de Fevereiro de 1862 e, em 1884, terminara o curso de Medicina em Lisboa e ingressara no Exército, regressa dos Açores em 1894 mais determinado em prosseguir a luta política contra o regime. Primeiro no seu jornal O Intransigente, depois no A Luta, órgão oficioso do Partido Unionista, que funda e que se torna no mais influente jornal republicano. Na preparação do 5 de Outubro, Camacho estabelece a ligação entre os republicanos e os militares. Ministro do Fomento do Governo Provisório, também ele se desilude com o novo regime.

Cândido dos Reis: o chefe militar

Conspirador "A Revolução não será adiada; sigam-me se quiserem. Havendo um só que cumpra o seu dever, esse único serei eu." Esta foi a resposta de Carlos Cândido dos Reis a oficiais que lhe propuseram adiar a operação militar para derrubar o regime. Nascido em Lisboa a 16 de Janeiro de 1852, Cândido dos Reis alista-se aos 17 anos como voluntário na Armada, onde vai subindo os seus vários escalões. Em 1909, motivos políticos levam-no a passar à reforma como vice-almi- rante. No ano anterior, este conspirador nato tinha estado na preparação de um golpe contra o regime, uma acção que fracassou. Então, Cândido dos Reis não se deixou abalar. Republicano convicto, anticlerical e ainda activista carbonário, lançou-se na preparação do 5 de Outubro. Mas nessa madrugada não resiste às más notícias: convencido de que a revolução falhou, suicida-se em Arroios.

Afonso Costa: 'salvador' do povo

Radical, uma frase ficou colada, como segunda pele, à imagem de Afonso Costa e que, para muitos, define este líder político do 5 de Outubro e a sua acção posterior enquanto homem do novo regime: "O Partido Republicano tem a obrigação de defender o povo mesmo contra a vontade do próprio povo." Nascido em Seia, a 6 de Março de 1871, jurista de formação, Afonso Costa cedo escolhe os ideais republicanos que defende com paixão. Os seus discursos inflamados e a participação na tentativa de golpe de 1908 levam-no à prisão. Chefe incontestado do Partido Republicano, deu à sua acção um teor anticatólico que se reflecte depois nas leis de separação Igreja/Estado. Ministro da Justiça após 1910, o radicalismo deste "jesuíta vermelho", como lhe chama Pessoa, levou à cisão do partido e ao afastamento de muitos companheiros de primeira hora.

Ídolo, Vale da Vinha, em Penacova, viu nascer em 1866 aquele que iria ser, nos anos conturbados da Primeira República, o único presidente que exerceria o seu mandato até ao fim - 6 de Agosto de 1919 a 5 de Outubro de 1923. António José de Almeida, após terminar a sua licenciatura em Medicina, parte para a ilha de S. Tomé, de onde regressa em 1904. Em Lisboa, dedicou-se à actividade política e tornou-se um autêntico ídolo das massas tal a sua eloquência nos comícios dos republicanos. Em 1912, fundou o Partido Evolucionista, a mais moderada das três forças políticas saídas da cisão do Partido Republicano, e que tinha como órgão oficioso o jornal República, de que António José de Almeida foi director. Coube-lhe o Ministério do Interior no Governo Provisório e, em 1916, foi chefe do Governo. E em 1919, vence as presidenciais.


Escritor, a I República converteu muitos intelectuais à política. Um dos mais populares foi o açoriano Teófilo Braga, Chefe do Estado provisório logo após o derrube de D. Manuel II e mais tarde, por breves meses em 1915, presidente da República. Cultor do que se convencionou chamar "virtudes republicanas", este poeta, ficcionista e ensaísta de reconhecidos méritos - autor, entre outros títulos, de História do Romantismo em Portugal e Camões e o Sentimento Nacional -, Teófilo era uma das personalidades mais idealistas das hostes republicanas. Ficou muito popular pelo seu estilo espartano: deslocava-se diariamente da sua residência ao Palácio de Belém num eléctrico. Um caso singular de humildade democrática, com muito poucos seguidores.


Mártir, no plano operacional, teve um papel determinante no 5 de Outubro ao conduzir as tropas nos combates da Rotunda (actual praça do Marquês de Pombal), em Lisboa. Este oficial da marinha foi a mais prestigiada figura militar da bem-sucedida revolta republicana. Desiludido com o rumo caótico da I República, designadamente com a violência urbana e as profundas divergências registadas entre as forças partidárias, não escondeu o seu distanciamento da classe política, apoiando os golpes militares de Pimenta de Castro (1915) e Sidónio Pais (1917). Acabou por ser morto na trágica madrugada de 19 de Outubro de 1921, quando marinheiros e soldados da GNR conotados com a esquerda radical assassinaram várias figuras públicas, incluindo o presidente do ministério, António Granjo. O herói tornou-se mártir.

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