terça-feira, 23 de junho de 2015

A 23 de Junho de 1811 - Morre o poeta satírico Nicolau Tolentino, professor de Retórica e de Poética, membro da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino a partir de 1780.



Vai, mísero cavalo lazarento,
Pastar longas campinas livremente;
Não percas tempo, enquanto to consente
De magros cães faminto ajuntamento.


Esta sela, teu único ornamento,
Para sinal da minha dor veemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inútil do inconstante vento.


Morre em paz, que, em havendo algum dinheiro,
Hei-de mandar, em honra de teu nome,
Abrir em negra pedra este letreiro:


«Aqui piedoso entulho os ossos come
Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
Que fora eterno, a não morrer de fome».





Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo, e de pena,
A filha o ponha ali, ou a criada.

A filha, moça esbelta e aparatada,
Lhe diz co’a doce voz, que o ar serena:
“Sumiu-se-lhe um colchão, é forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada”.

“Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado
Já a mãe não tem mãos?” E dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado;
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.