sexta-feira, 26 de junho de 2015

A 26 de Junho de 1871 -- O Governo de António José D'Ávila proíbe as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, de Antero de Quental, no dia em que estava anunciada a sexta conferência.

A BERLINDA - Folha 7 - Veja em detalhe

A última "Berlinda", que permitiu à publicação tornar-se célebre e citadíssima. As Conferências Democráticas proibidas no Largo da Abegoaria são o prato forte. O governador civil (aliás, o futuro historiador Gama Barros) executou a ordem de encerramento do Casino Lisbonense a 26 de Junho de 1871, um mês e quatro dias após o início das Conferências. A 5 de Julho, Rafael Bordalo Pinheiro manifesta claríssima simpatia pelo «espírito das Conferências» e pelos seus protagonistas. O entusiasmo é tal que ele se inclui entre os injustiçados. São 30 imagens ordenadas em cinco planos com legendas do próprio desenhador. Ávila é representado com as penas de pavão e o seu inefável cache-nez. Carlos Bento,
o ministro da Fazenda, pede esmola (sempre os efeitos da crise...). Contra a decadência burguesa saem de dentro de um barrete frígio os heróis – «nós!» – Antero, Eça, Batalha Reis, Soromenho, Saraga e Adolfo Coelho. A ordem, que o pavão do cache-nez diz proteger, começa a tremer e a sofrer cãibras à medida que os oradores falam – Antero, Soromenho, Eça, Adolfo Coelho. Antero define as causas da decadência («Provado está por fás e por nefas que os padres, os reis e as colónias são as cataratas, o estrabismo de Portugal velho»), Soromenho oferece carapuças a toda a gente (de Castilho a Ramalho), Eça fala do realismo do Mistério da Estrada de Sintra e das Farpas, Adolfo Coelho dá machadadas na instrução pública que não existe e Salomão Saraga falaria dos historiadores críticos... se o deixassem falar. O marquês de Valada, um dos melões de que já falámos, e os seus amigos extraem de dentro de Ávila uma portaria. A ordem dá à luz... E Ávila é o próprio a usar a chave da portaria para fechar o casino. As Conferências estavam, assim, abafadas. De rolha na boca os jovens heróis injustiçados assinam o protesto. E, por fim, num happy end às avessas, Ávila é saudado como herói, por padres, burros e ministros... «Viva a liberdade!»

O último número de A Berlinda constitui para Rafael Bordalo Pinheiro um curiosíssimo exercício de mimetismo. Ele como que diz: As conferências também são de A Berlinda. Tudo começa pelo auto-retrato do desenhador, como se ele fosse também um dos injustiçados, a apontar «a purulenta e burguesa fisionomia do país»... E simbolicamente A Berlinda morre no cadafalso montado por aquela absurda portaria que a ordem deu à luz...