domingo, 27 de setembro de 2015

A 27 de Setembro de 1915 - Morreu Ramalho Ortigão



Nasceu no Porto a 21 de novembro de 1836, sendo filho do professor Joaquim da Costa Ramalho Ortigão, oriundo duma nobre família do Algarve.
Fez os seus estudos preparatórios no Porto, e dedicou-se também ao magistério como seu pai. Leccionou no Colégio da Lapa, que seu pai dirigia, e sentindo uma grande inclinação para as letras, entrou para a redacção do Jornal do Porto, tomando a seu cargo a secção noticiosa e folhetim. Naquela folha colaboravam então os políticos mais em evidência. Ramalho Ortigão logo se afirmou um espírito cintilante e pitoresco, revelando as altas qualidades que lhe deviam dar nas letras um lugar tão especial. Lançado na vida do jornalismo, e tendo sido nomeado oficial da Academia Real das Ciências, veio em 1879 para Lisboa estabelecer definitiva residência.
Colaborou então nos seguintes jornais: Revolução de Setembro, Diário de Notícias,Diário Popular, Jornal do Comércio, Diário da Manhã, etc. A sua prosa, cheia de plasticidade e brilho, a riqueza do seu vocabulário, a graça tão picante e fina do seu comentário, lhe criaram a reputação de eminente escritor. Foi convidado a escrever cartas semanais para a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. De colaboração com o já falecido escritor Eça de Queirós, escreveu em 1871 o interessante romance O mistério da estrada de Sintra, que se publicou em folhetins no Diário de Notícias, e mais tarde foi reimpresso numa colecção romântica editada pela Parceria Pereira. Este livro motivou um grande movimento de curiosidade, por se julgar que os factos ali narrados eram verdadeiros e não fantasiados. No mesmo ano de 1871, também de colaboração com o citado escritor, fundou a publicação intitulada: As Farpas, crónica mensal da política, das letras e dos costumes. Esta colecção que consta de trinta e nove volumes, foi muito apreciada por toda a imprensa, e a ela se referiram também diferentes cronistas estrangeiros com palavras elogiosas. De Ramalho Ortigão conhecemos os seguintes livros: Literatura de hoje, Porto, 1866; Em Paris, Porto, 1868; são estudos e observações do autor na digressão que fizera a Paris por ocasião da exposição universal de 1867; Contos cor de rosa, Lisboa, 1870; este volume contém: A dança, A morte de Rosinha, Gastão, Ela e ele, Uma visita de pezames, e Na Aldeia;Hygiene da alma, pelo barão de Feuchterleben, versão portugueza; Lisboa, 1873; É o tomo I da Biblioteca dos livros úteis, da que foi editor o antigo livreiro António Maria Pereira; Ginx's Baby, versão portuguesa, 1874; 2 tomos; constituem os n.os 9 e 10 daBiblioteca da Actualidade, do Porto; Banhos de caldas e aguas minerais, Porto, 1875, com gravuras intercaladas no texto e treze estampas em separado; tem uma introdução escrita por Júlio César Machado; Notas de viagem, Rio de Janeiro, 1878; saíra primeiro no jornal a Gazeta de Notícias da mesma cidade; As praias de Portugal; guia do banhista e do viajante, Porto, 1876; com dez estampas; La Rénaissance et les Lusiades; préface d'une nouvelle édition des Lusiades, faite par le «Cabinet Portugais de Lecture» de Rio de Janeiro, etc.; Traduit du portugais par F. F. Steenakers, Lisbonne, 1880; é a versão do prólogo de que fora incumbido Ramalho Ortigão para a edição luxuosa dos Lusíadas, mandada fazer por conta do Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro, em comemoração do tricentenário de Camões; A instrução secundária na câmara dos senhores deputados, Rio de Janeiro, 1883; John Bull, A Holanda, O Culto da Arte em Portugal, etc. Também lhe pertencem o prólogo da edição das Primaveras, de Casimiro de Abreu, feita pelo editor portuense Cruz Coutinho; e um estudo francês, intitulado Coup d'oeil sur Ia civilisation au Brésil, fazendo parte do Catálogo da Exposição do Brasil em Amsterdão. Escreveu nos primeiros anos do jornal satírico e de caricaturas António Maria, fundado por Bordalo Pinheiro; e também publicou algumas biografias humorísticas no Álbum das Glorias, etc., sob o pseudónimo de João Ri baixo. Ramalho Ortigão foi um dos jornalistas que trabalharam com mais entusiasmo para a celebração do tricentenário de Camões, fazendo parte da comissão executiva das brilhantes festas que se realizaram em Lisboa, no ano de 1880.
Ele e Pinheiro Chagas foram os delegados que o governo mandou como representantes de Portugal, em 1893, à Exposição Histórico Europeia de Madrid, por ocasião das festas comemorativas do centenário de Cristóvão Colombo. Traduziu a comédia em quatro actos, de George Sand O marquês de Villemer que se representou no teatro de D. Maria lI. Também publicou algumas poesias no antigo jornal portuense A Grinalda. Ramalho Ortigão tem viajado muito, e o seu excelente livro Holanda, já, mencionado, é a descrição duma dessas viagens. Ainda que avançado em idade, o seu espírito não envelhece. Diz um dos seus biógrafos:

«Ramalho não acusa nem cansaço nem esmorecimento. É o mesmo artista de sempre, o burilador delicioso da frase, o anotador pitoresco e alegre, o crítico austero e delicado, o ironista delicioso e brilhante. Duma grande exuberância de fantasia e conhecendo perfeitamente a sua língua, que maneja com abundância e gosto, Ramalho é um dos escritores mais notáveis da sua geração. A sua prosa elegante, tersa, plástica, cheia de cor e de harmonia, é inconfundível como a sua personalidade. Alto, direito, forte, duma solidez perfeita e duma robustez magnífica, Ramalho com mais de 70 anos é ainda um rapaz, ágil, vibrante, e com o mesmo espírito e a mesma vivacidade dos anos juvenis. Ao passo que em volta de si tudo e todos envelhecem numa tristeza apagada, Ramalho como que rejuvenesce realizando o milagre da suprema força na idade em que ainda os mais animosos se deixam vencer e dominar pelos achaques e pelas desilusões da vida. Varão magnífico, poucos são os rapazes que possam competir com ele em louçanias de espírito e em robustez física. Os seus hábitos de vida simples e confortável, a sua higiene rigorosa, à inglesa, a sua alegria constante deram-lhe essa consistência formidável que o assentaram com firmeza na vida.»

Ramalho Ortigão foi nomeado há bastantes anos bibliotecário da Biblioteca da Ajuda. Por decreto de 23 de janeiro de 1901 foi agraciado com o titulo de académico de mérito da Academia Real de Belas Artes e por decreto de 30 de novembro de 1907 foi nomeado vogal do Conselho Superior de Instrução Pública por parte da mesma Academia.