terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A 2 de Fevereiro de 1939 - Nasceu João César Monteiro Santos



João César Monteiro Santos nasceu na Figueira da Foz a 2 de Fevereiro de 1939 e morreu em Lisboa a 3 de Fevereiro de 2003, vítima de uma doença prolongada, foi um importante cineasta português.
Integrou o grupo de jovens realizadores que se lançaram no movimento do Novo Cinema.
Irreverente e imprevisível, fez-se notar como crítico mordaz de cinema nos anos sessenta.
Prossegue a tradição iniciada por Manoel de Oliveira (Acto da Primavera) ao introduzir no cinema português de ficção o conceito de antropologia visual — Veredas e Silvestre —, tradição amplamente explorada no documentário por outros cineastas portugueses como António Campos, António Reis, Ricardo Costa, Noémia Delgado ou, mais tarde e noutro registo, Pedro Costa.
Segue um percurso original que lhe facilita o reconhecimento internacional. Várias das suas obras são representadas e premiadas em festivais internacionais como o Festival de Cannes e o Festival de Veneza (Leão de Prata: Recordações da Casa Amarela).
Em 2003, ano da sua morte, estreia o seu último filme, Vai e Vem, e é lançada, pela Atalanta, a edição integral da sua obra cinematográfica em DVD, que contém 14 títulos mais extras, como curtas metragens e entrevistas.
A edição foi oportuna e vendeu-se bastante bem; toda a suposta marginalidade do autor é exposta no seio da família portuguesa em pequeno formato mas de rico conteúdo.
O primeiro volume é composto pelos 4 primeiros filmes de João César Monteiro: Sophia de Mello Breyner Andresen (1969), Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço (1970), Fragmentos de um Filme-Esmola: a Sagrada Família (1972) e Que Farei com esta Espada? (1975).
O primeiro, como o próprio título indica, é um documentário sobre a grande poetisa portuguesa falecida este ano. A preto e branco, JCM entra na sua intimidade ao mesmo tempo que enquadra com símbolos a poesia marítima de Sophia. No entanto, um detalhe revela já a pouco escrupulosa sensibilidade de JCM: enquanto Sophia recita um poema na sua sala de estar, a sua filha coloca uma música dos Beatles a tocar no gira-discos aos altos berros. Sophia, que tenta ignorar de início, vê-se obrigada a protestar energicamente contra a suposta má educação da filha. Que depois descobre-se (graças aos extras do DVD) ter sido manipulado por JCM: um sentido de humor desrespeitador da imagem da poetisa Sophia? Não tanto, um pequeno sinal idiossincrático de JCM que termina o filme com o mar e uma arrepiante poesia de Sophia recitada pela própria no que é um emocionante e modernista tributo de JCM à grande dama da poesia portuguesa.
O segundo filme da lista, certamente inspirado na nouvelle vague francesa, revela-nos um pouco mais do conhecido estilo de JCM: um filme onde a palavra literária domina em relação à imagem, mesmo que esta queime certas vezes a fita num campo experimental que não mais foi repetido na sua obra. O filme é protagonizado por um Luís Miguel Cintra muito jovem, dobrado pela voz de JCM, pausada, ponderada, um estilo que começa a despontar de um autor que, como mais tarde se definiria, sempre foi um «intelectual de esquerda».
O terceiro encontra a sua razão de ser no mais que justificado título: fragmentos de um filme-esmola. Esmola porque, mais uma vez, JCM não conseguia encontrar o dinheiro necessário para levar ao cabo a sua obra.
Fragmentos, porque não se trata de uma história, mas de cenas numa família, onde o pai, alter-ego de JCM, vive para o seu mundo e para os seus, ignorando a estrutura social e, sobretudo, económica do seu tempo.
Um filme que, ao contrário do anterior, liberta a imagem das formas aprisionadas do velho regime, uma liberdade estética e plástica é procurada com ardor por JCM, que trabalhou na sua montagem durante mais de dois anos.
O quarto filme é o desembainhar a espada de JCM. Contestando a presença de um porta-aviões da NATO no porto de Lisboa, o realizador, unindo-se, entre outros, à escritora Maria Velho da Costa, vai atrás de testemunhos populares inabituais na cinematografia portuguesa. Sendo assim, acerca-se de uma prostituta numa das cenas mais humanas do cinema português: nunca procurando impor-se, deixa-a falar (manipulando-a por detrás da câmara de filmar, sem dúvida, mas de um modo que deixa transparecer a autenticidade do discurso), deixa-a defender, à sua maneira, a Revolução dos Cravos. Outro testemunho fortíssimo e emocionante, o do velho no que parece ser uma assembleia de trabalhadores de Alcáçova, comove-nos com as suas palavras simples e sinceras, que fecham as portas a um mundo cruel e injusto, que nos avisa para os cuidados que devemos ter com as portas que Abril abriu para que elas não se voltem a fechar. JCM remata a sua obra mais abertamente política com um «Proletários de todo o mundo, uni-vos» num filme que une a sua sensibilidade artística ao registo de um real que permanece escondido dos olhos mais medrosos.
Estes quatro primeiros filmes levam-nos a explorar as origens cinematográficas de João César Monteiro, autor que mais tarde seria consagrado por um estilo plasticamente muito depurado, muito pessoal e dotado de um poder de observação de alguém que sempre andou descalço, para melhor sentir a terra e os seus habitantes.
Mas, para além dessa descoberta, estas quatro obras têm um valor cinematográfico próprio, uma busca de algo diferente para mostrar numa época em que Portugal despontava para o que parecia ser um futuro mais radioso.
A continuação da obra de JCM sempre esteve ligada ao rumo que Portugal tomava, daí o seu humor corrosivo e “anarquista” para com as instituições que cada vez mais mostram estar ao serviço dos mais poderosos. Mas essa é uma outra história.