domingo, 7 de fevereiro de 2016

A 7 de Fevereiro de 1985 - Morreu Nuno Bragança


Ficcionista, licenciado em Direito, colaborador em vários periódicos, como Vértice, Seara Nova ou O Tempo e o Modo. Revelou-se literariamente com A Noite e o Riso com uma atitude romanesca que, tendo como contexto histórico-literário um período de experimentação e de desconstrução da escrita novelística, nasce da convicção de que "A lucidez do riso face ao absurdo é talvez o grande passo em frente da cultura contemporânea, a invenção da técnica de parir sem dor um mundo novo". (Cf. A Noite e o Riso, Lisboa, 1969, p. 300). No romance seguinte, Square Tolstoi, a autobiografia romanceada, sem se aproximar do nível de desconstrução e de experimentação do seu primeiro romance, absorvendo a lição surrealista, distingue-se de novo por uma irreverência patenteada na ironia, na inovação vocabular, no recurso a vários registos linguísticos, na inventividade das imagens. Colhendo da vida dupla do autor (funcionário diplomático e combatente na clandestinidade) ingredientes que a aproximam do género policial, a narrativa apresenta, a partir de um espaço de liberdade, Paris no rescaldo do maio de 68, uma imagem desencantada de Portugal, país de exilados e de emigrados, durante os anos de estertor do regime, auscultando o seu devir como nação, sob a perspectiva de um herói de cunho hamletiano, em busca de um amor e de um reino perdidos, num romance onde se agudiza a reflexão sobre o papel do intelectual em tempo de revolução, e sobre a compatibilidade ou prioridade de dois meios, escrita e ação direta, na transformação da sociedade. O recurso a um processo irónico, no que ele contém de mergulho na tradição literária portuguesa, será, ao longo de toda a novelística de Nuno Bragança, a arma privilegiada para a crítica mordaz a qualquer mecanismo repressor da liberdade pessoal, seja de carácter institucional (escola, família, religião, normas sociais, no caso de A Noite e o Riso), seja de carácter histórico (o fascismo, visado em Directa e Square Tolstoi), seja sobretudo ao nível da própria expressão literária enquanto instrumento privilegiado dessa libertação.