sexta-feira, 10 de agosto de 2018

10 de Agosto de 1897, nasceu em Lisboa Reinaldo Ferreira, conhecido por Repórter X




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Repórter X, de seu verdadeiro nome Reinaldo Ferreira, repórter, jornalista, dramaturgo e realizador de cinema português, nasceu em Lisboa no dia 10 de Agosto de 1897. Morreu na mesma cidade em 4 de Outubro de 1935.
Em 1917, com dezanove anos, arrepiou os lisboetas com um crime, tão tenebroso quanto inexistente, na Rua Saraiva de Carvalho, que metia malfeitores encapuçados, um presumível cadáver e um vilão, apropriadamente designado como o homem dos olhos tortos. A história veio a lume n’ “O Século”, em forma de cartas enviadas «por um desconhecido», que assinava Gil Goes. A coisa atingiu tais proporções que o jornal achou prudente revelar o embuste. Mas o folhetim, finalmente assumido como ficção, prosseguiu até ao seu desenlace e não tardou a transformar-se em livro - “O Mistério da Rua Saraiva de Carvalho”, que José Leitão de Barros tentou mesmo adaptar ao cinema com o título “O Homem dos Olhos Tortos”. A Cinemateca Nacional conserva ainda mil metros de película rodados para este abortado projecto.
Escassos meses após ter encerrado as aventuras de Gil Goes, Reinaldo Ferreira publicou em “A Manhã” (Março de 1918), um “inquérito à mendicidade”. Fez-se fotografar mal barbeado e andrajoso, de mão estendida, e o público convenceu-se de que o repórter fizera, de facto, vida de mendigo. Mas, salvo o retrato, era tudo inventado, incluindo os 47 centavos que lhe teria rendido esta incursão na indigência.
Nesse mesmo ano, voltou à carga em “O Século” com o suposto assassinato de uma estrangeira, perpetrado pelo marido numa pensão de Lisboa. Desta vez, auxiliado por Stuart Carvalhais, foi ao ponto de pôr um quarto da dita pensão em pantanas e de espalhar sangue de galinha pelo aposento. A encerrar o ano de 1918, “recolhe” as últimas palavras do presidente Sidónio Pais, assassinado na Estação do Rossio: «Morro eu, mas salva-se a Pátria. Morro bem.». A verdade é que não presenciou o sucedido, em virtude de ter chegado tarde para a reportagem prevista e, ao que parece, o estadista tombou sem ter tido tempo de dizer fosse o que fosse, uma vez que foi atingido num pulmão e, consequentemente, não conseguia falar.
Já casado com Lucília Ferreira, de quem depois procurará debalde divorciar-se, e sendo pai de uma filha, Reinaldo Ferreira parte em 1920 para Paris, ao serviço da filial francesa da Agência Americana, que fora fundada pelo escritor brasileiro Olavo Bilac. No final do ano seguinte, já deixara esta empresa e radicara-se em Barcelona com a família, incluindo a mãe, que o pai abandonara.
Com a subida ao poder de Primo de Rivera, o jornalista regressa a Portugal, mas não sem antes enviar de Barcelona uma crónica à imprensa de Lisboa, atacando o ditador. Assinou o artigo com o seu próprio nome, mas um amigo fez-lhe ver que poderia sofrer represálias. Prudente, Reinaldo escreveu por cima “Repórter”. Todavia, por um desses acasos do destino, o tipógrafo que recebeu a peça viu um “x” no que não era mais do que o rabisco final da mal-escondida assinatura. Nascia, assim, o Repórter X.
Já empregado no “ABC”, o jornal enviou-o à Rússia, em 1925, para acompanhar a luta intestina desencadeada após a morte de Lenine. De Paris, onde terá experimentado pela primeira vez a morfina, Reinaldo informa que lhe está a ser difícil conseguir um visto, mas vai mandando trabalho, designadamente uma entrevista forjada a Conan Doyle. Finalmente, começam a chegar as crónicas de Moscovo, onde o jornalista passa a vida a tropeçar em portugueses, desde o “porteiro” do Kremlin ao homem que embalsamou Lenine. A convicção de um seu biógrafo é a de que o nosso repórter nunca pôs os pés na Rússia e que se limitou a ficar em Paris, aguardando os artigos de Henri Béraud, que para lá fora destacado pelo “Le Journal”.
Em 1926, está de novo em Portugal, fixando-se então no Porto e escrevendo simultaneamente para o “ABC” e para “O Primeiro de Janeiro”. Também se encontra colaboração da sua autoria no semanário “O Domingo Ilustrado” (1925/27), bem como na revista “Ilustração”.
Foi em Março desse ano que ocorreu em Lisboa o célebre assassinato da corista Maria Alves, estrangulada num táxi e lançada morta para uma sarjeta. Baseando-se em anteriores crimes congéneres e na intriga de um romance espanhol, Reinaldo aventa nos jornais que o culpado é o ex-empresário da vítima, Augusto Gomes. E o espantoso é que acertou.
Aproveitando mais este sucesso do então já famoso Repórter X, o “Janeiro” publica-lhe o folhetim “O Táxi nº 9297”, que será depois publicado em livro, levado ao palco e adaptado ao cinema e realizado pelo próprio Reinaldo Ferreira. Já em 1924, vira adaptada ao cinema, em Espanha, a novela “El Botones del Ritz”.
Abandonado por Lucília em 1928, Reinaldo passou a viver, no ano seguinte, com Carmen Cal, ainda aparentada com a família portuense dos advogados Cal Brandão. Continua, entretanto, a trabalhar no “Janeiro”, onde congeminaria a mais inverosímil das suas “reinaldices” - uma alegada campanha alemã, para desacreditar a moeda inglesa, produzia libras de louça. O pior é que envolveu na trama o banqueiro Francisco Borges, do Banco Borges & Irmão, e a coisa, naturalmente, deu para o torto. Foi despedido do diário portuense, que ainda assim voltaria mais tarde a empregá-lo. Fundou vários jornais de pouca duração, até que, em 1930, financiado por um irmão, lançou em Lisboa o “Repórter X”, que durará até 1933. A chefia da redacção foi confiada a Mário Domingues, que fora seu condiscípulo no Colégio Francês e que não tarda a abandonar o projecto para fundar “O Detective”, onde denunciará, aliás, algumas das “reinaldices”.
De novo no Porto, Reinaldo Ferreira é internado, em finais de 1932, para uma cura de desintoxicação. Escassos meses depois, decide confessar a sua morfinomania nas páginas do “Repórter X”, dando também à estampa o primeiro volume das “Memórias de um ex-morfinómaníaco”.
No final da vida, ainda lançou os efémeros jornais “A Reportagem da Semana” e o “X”, mas - regressado à dependência da morfina - separou-se em 1935 de Carmen - de quem tivera um filho - e, em Outubro desse ano, morre em Lisboa, num prédio do actual Largo de São Carlos.
Além das suas reportagens e de fascinantes visões futuristas do Porto e Lisboa no ano 2000, Reinaldo Ferreira deixou ainda uma quantidade assombrosa de novelas, sobretudo policiais e de espionagem, e várias peças de teatro.
Se como jornalista, e não obstante os seus múltiplos talentos, Reinaldo Ferreira merece óbvias reservas, já a sua inspiração torrencial faz dele uma das mais fascinantes figuras portuguesas da primeira metade do século XX.