domingo, 22 de novembro de 2015

Ramada Curto - O homem e o advogado!


Amilcar da Silva Ramada Curto nasceu em Lisboa, em 6 de Abril de 1886, filho de João Rodrigues Ramada Curto e de Delfina Guiomar da Silva Ramada Curto. Estudou Direito em Coimbra entre 1905 e 1910.
Era proprietário de uma quinta no Cartaxo (Quinta do Refúgio) e dedicou-se a diversas actividades: advogado, político, jornalista, dramaturgo, entre outras.
Enquanto estudante destacou-se como um dos líderes da greve académica de 1907, tendo sido um dos estudantes punido com dois anos de expulsão da Universidade. 
Foi um dos responsáveis pela criação de várias organizações republicanas como: 
Escola 31 de Janeiro, a Liga da Academia Republicana e o
Centro Académico Republicano de Coimbra. Foi também um dos principais organizadores do comité académico e civil que preparou a revolução republicana na cidade dos estudantes.
Foi também membro da Carbonária, tendo sido um dos organizadores do movimento em Coimbra até 1910.
Após a conclusão do curso de Direito foi apontado como candidato a deputado republicano em 1910 e foi eleito deputado em 1911, pela Covilhã, sendo mais tarde eleito pelos círculos da Évora, Lisboa, entre outros. Em 1919, após se desvincular do Partido Republicano, Ramada Curto adere ao Partido Socialista Português, sendo o líder parlamentar deste partido na Câmara dos Deputados.
Foi ainda chamado a desempenhar funções governativas durante a República sendo Ministro das Finanças entre 30 de Março e 28 de Junho de 1919, num governo liderado por Domingos Leite Pereira. Volta mais tarde as ser convidado a exercer as funções de Ministro do Trabalho, noutro governo chefiado pelo mesmo líder político, entre 21 de Janeiro e 8 de Março de 1921.
Como advogado participou em julgamentos célebres como o dos envolvidos no 19 de Outubro de 1921 e no famoso caso Alves dos Reis/Banco Angola e Metrópole.
Enquanto jornalista conhecem-se as suas colaborações em numerosos periódicos: A Pátria ; A Revolta, Coimbra; O Povo, Lisboa; A Liberdade;A Marselheza; Diário de Coimbra, Coimbra; Jornal de Notícias, Porto;Diário de Lisboa, Lisboa; ABC, Lisboa; Atlântida, Lisboa, 1915-1920; De Teatro,Lisboa, 1922-1927; O Diabo, Lisboa, 1934-1940; A Farça, Coimbra, 1909-1910; Girassol, Lisboa, 1930-1931; Mocidade, Lisboa, 1899-1905; O Popular, Porto, 1934-1935; Revista Mensal, Porto, 1925; Teatro e Letras, Porto, 1925.
A sua obra dramatúrgica é muita e variada: começando com O Estigma (1905); Segundas Núpcias (1913); A Sombra (1914); Os Redentores da Ilíria (1916); Os Tenórios (1922); A Fera (1923); O Caso do Dia (1926); Justiça! (1927); A Noite do Casino (1928); O Sapo e a Doninha (1929);A Boneca e os Fantoches (1929); Sua Alteza (1930); O Diabo em Casa (1931); Mascarada (1933); Sol Poente (1934); O Perfume do Pecado (1935); Recompensa (1938);Duas Mães (1939); Consciência (1939); Columbina e o Telefone (1940); Madame Solange, Vidente (1943); O Jogo do Diabo (revista-1945); Multa Provável (1951); A Voz da Cidade (1952); Fogo de Vistas (1956).
Publicou ainda outras obras como: O Preto no Branco (1944); Diário de José Maria (1941); Bianca Capelo (1933); Debaixo do Cedro (1931); e, A Vida Amorosa de Malaquias Raposo (1931).
Foi também tradudor de algumas obras como: Topaze de Pagnol; O Sexo Fraco de Bourdet; e Um Marido Ideal de Oscar Wilde.
Após a instauração da Ditadura Militar, Ramada Curto alinha sempre nas hostes da oposição.
Conhece-se também a sua iniciação maçónica em 1903, na Loja Elias Garcia, de Lisboa, com o nome simbólico de Elysée Réclus, tendo ascendido ao grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite. Pertenceu ainda ao Supremo Conselho da Maçonaria Portuguesa desde 1934. Foi Presidente do Conselho da Ordem em 1931-1932.
Faleceu em Lisboa a 18 de Outubro de 1961.


Umas das histórias judiciais que ficaram célebres, na primeira metade do século XX, teve a ver com a defesa de um arguido acusado de chamar "filho da puta" ao ofendido, expressão que, na altura, era considerada altamente ofensiva.
Nas sua alegações, o escritor e advogado Ramada Curto começou por chamar a atenção do juiz para o facto de muitas vezes se utilizar essa expressão em termos elogiosos ("Ganda filho da puta, és o melhor de todos !") ou carinhosos ("Dá cá um abraço, meu grande filho da puta !"), tendo concluído as suas alegações da seguinte forma :

"E até aposto que, neste momento, V. Exa. está a pensar o seguinte :

'Olhem lá do que este filho da puta não se havia de ter lembrado só para safar o seu cliente !"

Chegada a hora da sentença, o juiz vira-se para o réu e diz :

"O senhor está absolvido, mas bem pode agradecer ao filho da puta do seu advogado".