Irei falar de tudo e do nada. Histórias e estórias. Coisas pensantes e desconcertantes. Fundado a 30 de Novembro de 2009 numa 2ª Feira
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segunda-feira, 25 de julho de 2022
sexta-feira, 22 de julho de 2022
Como surgiu a expressão "Andar na calhandrice"
Como surgiu a expressão "Andar na calhandrice"
A Lisboa dos séculos XII, XIII e XIV, tinha imensos escravos brancos. A novidade da escravatura que nasceu da expansão marítima portuguesa, foi a quantidade de pessoas negras que foram trazidas à força, sobretudo da costa ocidental africana, e o tempo que essa prática, legal e com carácter sistemático durou, de meados do séc.XV até finais do séc. XVIII. Ao longo de 350 anos entraram em Portugal cerca de 1 milhão de cativos africanos.
Na Lisboa daquele tempo coabitavam pessoas livres e pessoas escravizadas em perfeito ambiente de naturalidade e toda a sociedade aceitava a escravatura como algo normal e perfeitamente legítimo. A escravatura manteve-se, em pleno, até ao governo de Sebastião José de Carvalho e Melo, (mais tarde agraciado com o título nobiliárquico de Marquês de Pombal em 1770), que implementou leis no sentido de abolir a escravatura na Metrópole. As primeiras medidas, em 1761, foram a de proibir a entrada de novos escravos, em que todos os homens e mulheres que entrassem em Portugal seriam homens livres e, em 1773, com a declaração da "Lei do Ventre Livre" que decretava que, a partir daquela altura todos os filhos nascidos de mulheres escravas nasceriam livres. Porém, estas medidas não eliminavam completamente a escravatura pois, quem já era escravo continuava a sê-lo.
Como se pode calcular, os escravos geralmente faziam os trabalhos que as outras pessoas não queriam fazer, como os trabalhos pesados ou "sujos". Às escravas cabia a responsabilidade de fazer os trabalhos domésticos e, entre eles, o de esvaziar e lavar os penicos das casas senhoriais. O conteúdo dos penicos era despejado no Tejo por um grupo de escravas que o transportavam à cabeça, dentro de um pote muito grande a que chamavam "o calhandro" sendo que elas eram chamadas "mulheres do pote" ou "calhandreiras", pois transportavam o "calhandro" . Essas escravas, no seu trabalho diário, enquanto carregavam, e despejavam o "calhandro", iam falando umas com as outras e contando o que se passava na casa dos seus patrões e donos, o que originava, muitas vezes, que a vida de muitos senhores andasse de boca em boca e fosse do conhecimento público.
Foi assim que passou a chamar-se "calhandreira" a alguém que gosta de falar da vida alheia, com a acusação de "Andar na calhandrice".
quarta-feira, 20 de julho de 2022
DA CRIAÇÃO DA IGREJA CATÓLICA AOS NOSSOS DIAS
Em 325, no Concílio de Nicéia, Constantino o Grande, criou a Igreja Católica após um genocídio de 45.000 Yaudins que, torturou para que renunciassem à reencarnação.
Simultaneamente ordenou a apreensão de todos os livros religiosos de todas as aldeias do império e, foi assim que procedeu à criação de A BÍBLIA, como livro religioso adoptado.
Em 327, Constantino, já coroado imperador de Roma, ordenou que Jerónimo traduzisse a versão da Vulgata para latim, mudando os nomes próprios hebraicos e adulterando as escrituras.
Em 594, PURGATÓRIO foi inventado.
Em 610, foi inventado o título do Papa.
Em 788, é imposta a adoração de divindades pagãs.
Em 995, o significado de kadosh (posto de lado) foi alterado para santo.
Em 1079, o celibato dos padres é imposto, uma palavra totalmente católica.
Em 1090, o Rosário foi imposto.
Em 1184, a Inquisição foi perpetrada.
Em 1190, as indulgências são vendidas.
Em 1215, a confissão foi imposta aos padres.
Em 1216, o conto do Papa Inocêncio III sobre o terror do pão (um deus na mitologia grega), que se transforma em carne humana, foi inventado.
Em 1311, o baptismo prevaleceu.
Em 1439, o inexistente PURGATÓRIO foi dogmatizado.
Em 1854, a Imaculada Conceição foi inventada.
Em 1870, foi imposto o absurdo de um papa infalível, no qual se inventou o conceito de contratação
São mais de 2500 invenções instituídas pela religião para poder exercer o poder temporal da Igreja, sobre o Homem, através do Cristianismo.
Enfim, todas as religiões são, no fundo, uma invenção ... do homem.
Só a Bíblia já teve mais de 500 versões e alterações!
terça-feira, 12 de julho de 2022
Este texto da Mafalda Saraiva prova o quão deliciosa é a nossa língua.
Antes de ir desta para melhor, vou dar com a língua nos dentes e lavar roupa suja. Com a faca e o queijo na mão, com uma perna às costas e de olhos fechados, vou sacudir a água do capote. Ainda tirei o cavalinho da chuva, tentei riscar este assunto do mapa, mas eu sou uma troca-tintas, uma vira casacas e vou voltar à vaca fria. Andava eu a brincar aqui com os meus botões, a chorar sobre o leite derramado, com bicho carpinteiro e macaquinhos na cabeça, quando decidi procurar uma agulha no palheiro. Eu sei, eu não bato bem da bola, mas sentia-me pior que uma lesma e tinha uma pedra no sapato. O problema é que andava a bater com a cabeça nas paredes há algum tempo, com um aperto no coração e uma enorme vontade de arrancar cabelos. Passei muitos dias com cara de caso e com a cabeça nas nuvens como uma barata tonta. Mas eu, que sou armada até aos dentes, arregacei as mangas e procurei o arquivo a eito. Acontece que uma vez em conversa com um amigo ele disse-me «Tiras-me do sério» e eu, sem papas na língua, respondi «Se te tiro do sério, deixo-te a rir, é isso?». Ele, de trombas e com os azeites, gritou em plenos pulmões «Esquece Mafalda, escreves belissimamente mas não conheces nem 1/4 das expressões portuguesas.» Só faltou trepar paredes. É preciso ter lata! O primeiro milho é dos pardais. Primeiro pensei ter posto a pata na poça, depois achei que ele tinha acordado com os pés de fora e que estava a fazer uma tempestade num copo d´água e trinta por uma linha. Fiz vista grossa, mas depressa disse Ó tio! Ó tio! Abri-lhe o coração, o jogo e os olhos na esperança de acertar agulhas e pôr os pontos nos is. Não lhe ia prometer mundos e fundos nem pregar uma peta, eu estava mesmo a brincar. Era um trocadilho. Pão, pão, queijo, queijo. Rebeubéu, pardais ao ninho, fiquei com os pés para a cova, só me apeteceu pendurar as botas e mandá-lo pentear macacos, dar uma volta ao bilhar grande ou chatear o Camões. Que balde de água fria! Caraças, levei a peito, aquela resposta era tão sem pés nem cabeça que fui aos arames. Eu sei que dou muitas calinadas, meto os pés pelas mãos e faço tudo à balda. Posso até ser uma cabeça de alho chocho e andar sempre com a cabeça nas nuvens mas não ia meter o rabo entre as pernas nem que a vaca tossisse. Pus a cabeça em água e fiquei a pensar na morte da bezerra. Caí das nuvens e com paninhos quentes passei a conversa a pente fino, não fosse bater as botas. Percebi que ele tinha trocado alhos por bugalhos, apeteceu-me cortar-lhe as vazas, mas estava de mãos atadas e baixei a bola. Engoli o sapo, agarrei com unhas e dentes, dei o braço a torcer e dei-lhe troco com o intuito de descalçar a bota. Não gosto muito do vira o disco e toca o mesmo, mas isto já são muitos anos a virar frangos e pus as barbas de molho. Uma mão lava à outra e as duas lavam as orelhas, mas ele está-se nas tintas, à sombra da bananeira. Não deu uma mãozinha nem deixou-se comprar gato por lebre. Ficou com a pulga atrás da orelha, pôs-se a pau antes de estar feito ao bife. Pus mãos à obra, tentei fazer um negócio da China e bati na mesma tecla. Dados lançados, cartas na mesa, coisas do arco da velha. Claro que dei com o nariz na porta, o gato comeu-lhe e língua e saiu com pés de lã. Água pela barba! Devia aproveitar a boleia antes de ficar para tia de pedra e cal onde Judas perdeu as botas. É que isto pode estar giro e estar fixe, mas não me apetece segurar a vela com dor de corno e dor de cotovelo só porque não conheço 1/4 das expressões portuguesas.
quarta-feira, 6 de julho de 2022
Saiba quem foi Caio Apuleio Diocles
QUEM PENSA QUE O ATLETA MAIS BEM PAGO DO MUNDO É CRISTIANO RONALDO ESTÁ MUITO ENGANADO, EXISTIU OUTRO TAMBÉM PORTUGUÊS E CHAMOU-SE CAIO APULETO DIOCLES, NASCEU EM LAMECUS A ATUAL LAMEGO, FOI UM DOS MAIORES CONDUTORES DE QUADRIGAS DE SEMPRE, TENDO JUNTADO O EQUIVALENTE A MAIS DE 15 MIL MILHÕES DE DOLARS (EM MOEDA ATUAL) AO LONGO DA SUA VIDA. (Na foto a estátua do atleta em Lamego)
Caio Apuleio Diocles era um famoso condutor de quadrigas, um desporto que era o equivalente aos ralis ou à Fórmula 1 do Império Romano, e ainda hoje reina como o atleta mais rico da História.
Nascido por volta de 104 D.C., o berço de Caio foi na antiga Lusitânia, mais especificamente na cidade de Lamecus atualmente Lamego, onde existe uma estátua em sua honra.
Começou a sua carreira aos 18 anos em Ilerda, a atual Lérida, na Catalunha, depois seguiu para o Circo Máximo, em Roma, onde se realizavam as grandes disputas deste desporto espetáculo. Lá, adotou o nome de “Lamecus”, em honra à sua cidade natal.
A carreira de Caio Apuleio Diocles foi bastante longa apesar das corridas de quadrigas serem muito perigosas e uma queda significar muitas vezes ser pisado pelos cavalos dos rivais ou arrastado pela arena. Ao longo de uma carreira de 24 anos, o atleta participou em 4257 corridas e venceu 1462 amealhando por isso vastos proventos pelas vitórias.
Para os romanos, as corridas de quadrigas eram o desporto de eleição, fomentadas pelos Imperadores, que oferecendo uma distração tão desejada à população aumentavam assim a sua popularidade.
As provas estavam envoltas em grandes rituais e iniciavam-se com uma procissão sagrada pelas ruas de Roma, até ao Circo Máximo, que acolhia até 200 mil pessoas.
terça-feira, 5 de julho de 2022
COLOCAR AS BARBAS DE MOLHO
COLOCAR AS BARBAS DE MOLHO
O uso de barba era muito comum na antiguidade e na idade média e era tido como um símbolo de honra e poder. Há no entanto muitas excepções.
Na Grécia era usual o uso de barba mas Alexandre, o grande, proibiu-as alegando serem uma desvantagem em combate. Já a igreja católica romana desaconselhou aos seus clérigos o uso de barba para não serem confundidos com sacerdotes de outras religiões mormente os da igreja ortodoxa.
Na idade média ter a barba cortada por alguém era uma grande humilhação. Era de tal importância a barba que o 4º Vice-rei da Índia, D. João de Castro, querendo obter um empréstimo para reedificar a fortaleza de Diu deu, como penhor, as suas barbas.
Mas “colocar as barbas de molho” o que significa? Há um ditado espanhol que esclarece o sentido da frase: “quando você vir as barbas de seu vizinho pegar fogo, ponha as suas de molho”,
Para quem dá tamanha importância à barba é deverá tomar todos os cuidados para não ficar sem elas.
Actualmente o seu significado é: ser prudente, prevenir-se, estar de sobreaviso, ter paciência.
Uma expressão contrária “tire as barbas de molho” pode também significar um pedido para acabar com o seu estado de inactividade e assemelha-se a dizer para arregaçar as mangas e agir.
domingo, 20 de fevereiro de 2022
PORTUGUÊS NÃO É PARA AMADOR
PORTUGUÊS NÃO É PARA AMADOR
Um poeta escreveu:
"Entre doidos e doídos, prefiro não acentuar".
Às vezes, não acentuar parece mesmo a solução.
Eu, por exemplo, prefiro a carne ao carné.
Assim como, obviamente, prefiro o coco ao cocó.
No entanto, nem sempre a ausência do acento é favorável...
Pense no cágado, por exemplo, o ser vivo mais afetado quando alguém pensa que o acento é mera decoração.
E há outros casos, claro!
Eu não me medico, eu vou ao médico.
Quem baba não é a babá.
Você precisa ir à secretaria para falar com a secretária.
Será que a romã é de Roma ?
Seus pais vêm do mesmo país ?
A diferença na palavra é um acento; assento não tem acento.
Assento é em baixo, acento é em cima.
Embaixo é junto e em cima separado.
Seria maio o mês mais apropriado para colocar um maiô ?
Quem sabe mais entre a sábia e o sabiá ?
O que tem a pele do Pelé ?
O que há em comum entre o camelo e o camelô ?
O que será que a fábrica fabrica ?
E tudo que se musica vira música ?
Será melhor lidar com as adversidades da conjunção ”mas” ou com as más pessoas ?
Será que tudo que eu valido se torna válido ?
E entre o amem e o amém, que tal os dois ?
Na sexta comprei uma cesta logo após a sesta.
É a primeira vez que tu não o vês.
Vão tachar de ladrão se taxar muito alto a taxa da tacha.
Asso um cervo na panela de aço que será servido pelo servo.
Vão cassar o direito de casar de dois pais no meu país.
Por tanto nevoeiro, portanto, a cerração impediu a serração.
Para começar o concerto tiveram que fazer um conserto.
Ao empossar, permitiu-se à esposa empoçar o palanque de lágrimas.
Uma mulher vivida é sempre mais vívida, profetiza a profetisa.
Calça, você bota; bota, você calça.
Oxítona é proparoxítona.
Na dúvida, com um pouquinho de contexto, garanto que o público entenda aquilo que publico.
E paro por aqui, pois esta lista já está longa.
Realmente, português não é para amador!
terça-feira, 21 de setembro de 2021
O martírio do padre Malagrida
O martírio do padre Malagrida
No dia 20 de setembro de 1761 teve lugar um auto-de-fé nos claustros do Convento de S. Domingos, em Lisboa. A principal figura era Gabriel Malagrida, um padre jesuíta italiano acusado e condenado por heresia pela Inquisição e “relaxado à justiça secular”, ou seja, condenado à morte.
Foi conduzido pelas ruas de Lisboa “com mordaça e carocha”, isto é, amarrado e com barrete de condenado, até ao Rossio, onde foi garroteado e o seu corpo queimado na fogueira, já no dia seguinte.
Gabriel Malagrida foi um jesuíta italiano, nascido na vila de Managgio, a 18 de Setembro de 1689.
Desde criança deu provas de engenho e ao mesmo tempo duma tendência exagerada para o misticismo. Depois de completar em Milão os seus estudos entrou na Companhia de Jesus, em Génova, a 27 de Setembro de 1711.
Resolvendo dedicar-se às missões, saiu de Génova em 1721, seguindo para o Maranhão, onde os seus superiores o designaram para pregar, sendo depois nomeado em 11 de Outubro de 1723 pregador do colégio do Pará, e ali o encarregaram dos alunos. Não cessava, contudo, de missionar na cidade e nas aldeias circunvizinhas, até que lhe ordenaram que voltasse ao Maranhão, sendo desde logo escolhido para reitor da missão dos Tobajáras. Na narrativa das suas missões não falava senão em vozes misteriosas que o avisavam; tudo são milagres e prodígios. Malagrida julgava-se favorito do céu. Em 1727, por ordem dos superiores, voltou ao Maranhão para reger no colégio dos jesuítas a cadeira de belas letras, mas logo em 1728 voltou a catequizar os índios. Em 1735 começou a missionar entre os colonos, seguindo do Maranhão para a Baía, e dali a Pernambuco, voltando enfim ao Maranhão. Durante 14 anos, até 1749, conservou-se nestas missões granjeando neste tempo a fama de taumaturgo, e a denominação de apóstolo do Brasil. Em 1749 veio para a Europa, com a fama de santo, vindo tratar de arranjar dotações para os vários conventos e seminários que fundara. Em Lisboa foi acolhido como santo, e a imagem, que trazia consigo, foi conduzida em procissão para a igreja do colégio de Santo Antão. D. João V, nessa época, estava muito doente, e acolheu de braços abertos o santo jesuíta, fez-lhe todas as concessões que ele desejava, e chamou-o para junto de si na hora extrema. Foi Gabriel Malagrida quem assistiu aos últimos momentos do monarca. Em 1751 voltou ao Brasil, mas não foi bem recebido no Pará, onde governava então o irmão do Marquês de Pombal. Até 1754 Malagrida esteve no Maranhão missionando entre os cristãos.
Em 1751 voltou a Lisboa, por ser chamado pela rainha, viúva de D. João V, D. Maria Ana da Áustria e encontrou no poder o Marquês de Pombal. O Marquês que se propusera a “regenerar Portugal”, livrando-o da tutela dos jesuítas, não podia simpatizar com o taumaturgo. Não o deixando entrar na intimidade da rainha viúva, Malagrida partiu para Setúbal, onde depois teve a notícia da morte da soberana. O Marquês de Pombal não se importou com aquele jesuíta santo, enquanto as suas "santidades" não contrariavam os seus projectos, mas o conflito era inevitável. Aquando do terramoto de 1755, Malagrida estava em Lisboa. Aquela catástrofe ocasionou um terror imenso na população da capital, e um dos grandes empenhos do Marquês de Pombal era levantar os espíritos abatidos. Para isso mandou compor e publicar um folheto escrito por um padre, em que se explicavam as causas naturais dos terramotos, e se desviava a crença desanimadora de que fora castigo de Deus, e de que eram indispensáveis a penitência e a compunção. Saiu a campo indignado o padre Malagrida escrevendo um folheto intitulado:Juizo da verdadeira causa do terremoto que padeceu a corte de Lisboa no 1.º de Novembro de 1755. Nesse folheto combatia com indignação as doutrinas do outro que Pombal fizera espalhar, atribuía a castigo de Deus o terramoto, citava profecias de freiras, condenava severamente os que levantaram abrigos nos campos, os que trabalhavam em levantar das ruínas da cidade, e recomendava procissões, penitências, e sobretudo recolhimento e meditação de seis dias nos exercícios de santo Inácio de Loyola. O Marquês de Pombal não era homem que permitisse semelhantes contrariedades. Mandou queimar o folheto pela mão do algoz, e desterrou Malagrida para Setúbal. O jesuíta imaginava que, com o seu prestígio de taumaturgo, podia lutar contra a vontade do marquês, e parece, que de Setúbal escreveu mais uma carta ameaçadora e por isso Malagrida foi preso, transferido para o colégio da sua ordem em Lisboa, e no dia 11 de Janeiro de 1759, considerado réu de lesa-majestade, sendo transferido para as prisões do Estado. Sendo depois entregue à Inquisição, Malagrida foi condenado à pena de garrote e de fogueira, realizando-se o suplício no Rossio no auto de fé de 20 de Setembro de 1761. As suas cinzas foram espalhadas ao vento.
Auto de Fé
“(…) que com baraço e pregão seja levado pelas ruas públicas desta cidade até à Praça do Rossio e que nela morra morte natural de garrote, e que, depois de morto, seja seu corpo queimado e reduzido a pó e cinza, para que dele e de sua sepultura não haja memória alguma”
segunda-feira, 20 de setembro de 2021
A RIQUEZA DA LÍNGUA PORTUGUESA
A Língua Portuguesa continua rica...
Os padeiros têm falta de massa.
Os padres já não comem como abades.
Os relojoeiros andam com a barriga a dar horas.
Os talhantes estão feitos ao bife.
Os criadores de galinhas estão depenados.
Os pescadores andam a ver navios.
Os vendedores de carapau estão tesos.
Os apanhadores de caranguejo vêem a vida a andar para trás.
Os desinfestadores estão piores que uma barata.
Os fabricantes de cerveja perderam o seu ar imperial.
Os cabeleireiros arrancam os cabelos.
Os jardineiros engolem sapos.
Os cardiologistas estão num aperto.
Os coveiros vivem pela hora da morte.
Os sapateiros estão com a pedra no sapato.
As sapatarias não conseguem descalçar a bota.
Os sinaleiros estão de mãos a abanar.
Os golfistas não batem bem da bola.
Os fabricantes de fios estão de mãos atadas.
Os coxos já não vivem com uma perna às costas.
Os cavaleiros perdem as estribeiras.
Os pedreiros trepam pelas paredes.
Os alfaiates viram as casacas.
Os almocreves prendem o burro.
Os pianistas batem na mesma tecla.
Os pastores procuram o bode expiatório.
Os pintores carregam nas tintas.
Os agricultores confundem alhos com bugalhos.
Os lenhadores não dão galho.
Os domadores andam maus como as cobras.
As costureiras não acertam as agulhas.
Os barbeiros põem as barbas de molho.
Os aviadores caem das nuvens.
Os bebés choram sobre o leite derramado.
Os olivicultores andam com os azeites.
Os oftalmologistas fazem vista grossa.
Os veterinários protestam até que a vaca tussa.
Os criadores de gado pensam na morte da bezerra.
As cozinheiras não têm papas na língua.
Os trefiladores vão aos arames.
Os sobrinhos andam "Ó tio, ó tio".
Os elefantes andam de trombas.
SÓ OS POLÍTICOS CONTINUAM, COMO SEMPRE…
GORDOS, CORRUPTOS E MENTIROSOS!!!
domingo, 30 de maio de 2021
segunda-feira, 3 de maio de 2021
quarta-feira, 28 de abril de 2021
Aula ao 7º Ano por ZECA AFONSO em Outubro de 1967.
ZECA AFONSO - nasceu 02.08.1929 - Faleceu 23.02.1987
"MEMÓRIAS DE UMA AULA NO LICEU DE SETÚBAL" [ por Hélida Carvalho Santos: - Barreiro, 4 Out. 1967]
«Segundo dia de aulas. Continua o desassossego, com o pessoal a trocar beijos, abraços e confidências, depois desta longa separação que foram 3 meses e meio de férias. Estávamos todos fartos do verão, com saudades uns dos outros. A sala é a mesma do ano passado, no 1º andar e cheirava a nova, tudo encerado e polido, apesar do material já ser mais do que velho. Somos o 7.º A e como não chumbou nem veio ninguém de novo, a pauta é exactamente igual à do ano passado. Eu sou o n.º 34, e fico sentada na segunda fila, do lado da janela, cá atrás, que é o lugar dos mais altos.
«Hoje tivemos, pela primeira vez, Organização Política e apareceu-nos um professor novo, acho que é a primeira vez que dá aulas em Setúbal, dizem que veio corrido de um liceu de Coimbra, por causa da política.
«Já ontem se falava à boca cheia dele, havia malta muito excitada e contente porque dizem que ele é um fadista afamado. Tenho realmente uma vaga ideia de ouvir o meu tio Diamantino falar dele, mas já não sei se foi por causa da cantoria se por causa da política. A Inês contou que ouviu o pai comentar, em casa, que o homem é todo revolucionário, arranja sarilhos por todo o lado onde passa. Ela diz que ele já esteve preso por causa da política, é capaz de ser comunista. Diferente dos outros professores, é de certeza. Quando entrou na sala, já tinha dado o segundo toque, estava quase no limite da falta. Entrou por ali a dentro, todo despenteado, com uma gabardine na mão e enquanto a atirava para cima da secretária, perguntou-nos:
– Vocês são o 7.º A, não são? Desculpem o atraso mas enganei-me e fui parar a outra sala. Não faz mal. Se vocês chegarem atrasados também não vos vou chatear.
«Tinha um ar simpático, ligeiro, um visual que não se enquadrava nada com a imagem de todos os outros professores. Deu para perceber que as primeiras palavras, aliadas à postura solta e descontraída, começavam a cativar toda a gente. A Carolina virou-se para trás e disse-me que já o tinha visto na televisão, a cantar Fado de Coimbra. Realmente o rosto não me era estranho. É alto, feições correctas, embora os dentes não sejam um modelo de perfeição e é bem parecido, digamos que um homem interessante para se olhar. O Artur soprou-me que ele deve ter uns 36 anos e acho que sim, nota-se que já é velho. Depois das primeiras palavras, sentou-se na secretária, abriu o livro de ponto, rabiscou o que tinha a escrever e ficou uns cinco minutos, em silêncio, a olhar o pátio vazio, através das janelas da sala, impecavelmente limpas.
«Enquanto ele estava nesta espécie de marasmo nós começámos a bichanar uns com os outros, cada um emitindo a sua opinião, fazendo conjecturas. Às tantas, o bichanar foi subindo de tom e já era uma algazarra tão grande que parece tê-lo acordado. Outro qualquer professor já nos teria pregado um raspanete, coberto de ameaças, mas ele não disse nada, como se não tivesse ouvido ou, melhor, não se importasse. Aliás, aposto que nem nos ouviu. O ar dele, enquanto esteve ausente, era tão distante que mais parecia ter-se, efectivamente, evadido da sala. Quando recomeçou a falar connosco, em pé, em cima do estrado, já tinha ganho o primeiro round de simpatia.
«Depois, veio o mais surpreendente:
– Bem, eu sou o vosso novo professor de Organização Política, mas devo dizer-vos que não percebo nada disto. Vocês já deram isto o ano passado, não foi? Então sabem, de certeza, mais que eu.
«Gargalhada geral.
– Podem rir porque é verdade. Eu não percebo nada disto, as minhas disciplinas, aquelas em que me formei, são História e Filosofia, não tenho culpa que me tivessem posto aqui, tipo castigo, para dar uma matéria que não conheço, nem me interessa. Podia estudar para vir aqui desbobinar, tipo papagaio, mas não estou para isso. Não entro em palhaçadas.
«Voltámos a rir, numa sonora gargalhada, tipo coro afinado, mas ele ficou impávido e sereno. Continuava a mostrar um semblante discreto, calmo, simpático.
– Pois é, não vou sobrecarregar a minha massa cinzenta com coisas absolutamente inúteis e falsas. Tudo isto é uma fantochada sem interesse. Não vou perder um minuto do meu estudo com esta porcaria.
«Começámos a olhar uns para outros, espantados; nunca na vida nos tinha passado pela frente um professor com tamanha ousadia.
– Eu estudaria, isso sim, uma Organização Política que funcionasse, como noutros países acontece, não é esta fantochada que não passa de pura teoria. Na prática não existe, é uma Constituição carregada de falsidade. Portugal vive numa democracia de fachada, este regime que nos governa é uma ditadura desumana e cruel.
«Não se ouvia uma mosca na sala. Os rostos tinham deixado cair o sorriso e estavam agora absolutamente atónitos, vidrados no rosto e nas palavras daquele homem ímpar. O que ele nos estava a dizer é o que ouvimos comentar, todos os dias, aos nossos pais, mas sempre com as devidas recomendações para não o repetirmos na rua porque nunca se sabe quem ouve. A Pide persegue toda a gente como uma nuvem de fumo branco, que se sente mas não se apalpa.
– Repito: eu não percebo nada desta disciplina que vos venho leccionar, nem quero perceber. Estou-me nas tintas para esta porcaria. Mas, atenção, vocês é outra coisa. Vocês vão ter que estudar porque, no final do ano, vão ter que fazer exame para concluírem o vosso 7.º ano e poderem entrar na Faculdade. Isso, vocês têm que fazer. Estudar. Para serem homens e mulheres cultos para poderem combater, cada um onde estiver, esta ditadura infame que está a destruir a vossa pátria e a dos vossos filhos. Vocês são o amanhã e são vocês que têm que lutar por um novo país. Não vão precisar de mim para estudar esta materiazinha de chacha, basta estudarem umas horas e empinam isto num instante. Isto não vale nada. Eu venho dar aulas, preciso de vir, preciso de ganhar a vida, mas as minhas aulas vão ser aulas de cultura e política geral. Vão ficar a saber que há países onde existem regimes diferentes deste, que nos oprime, países onde há liberdade de pensamento e de expressão, educação para todos, cuidados de saúde que não são apenas para os privilegiados, enfim, outras coisas que a seu tempo vos ensinarei.
Percebem? Nós temos que aprender a não ser autómatos, a pensar pela nossa cabeça. O Salazar quer fazer de vocês, a juventude deste país, carneiros, mas eu não vou deixar que os meus alunos o sejam. Vou abrir-lhes a porta do conhecimento, da cultura e da verdade. Vou ensinar-lhes que, além fronteiras, há outros mundos e outras hipóteses de vida, que não se configuram a esta ditadura de miséria social e cultural.
Outra coisa: vou ter que vos dar um ponto por período porque vocês têm que ter notas para ir a exame. O ponto que farei será com perguntas do vosso livro que terão que ter a paciência de estudar. A matéria é uma falsidade do princípio ao fim, mas não há volta a dar, para atingirem os vossos mais altos objectivos. Têm que estudar. Se quiserem copiar é com vocês, não vou andar, feita toupeira, a fiscalizá-los, se quiserem trazer o livro e copiar, é uma decisão vossa, no entanto acho que devem começar a endireitar este país no sentido da honestidade, sim porque o nosso país é um país de bufos, de corruptos e de vigaristas.
Não falo de vocês, jovens, falo dos homens da minha idade e mais velhos, em qualquer quadrante da sociedade. Nós temos sempre que mostrar o que somos, temos que ser dignos connosco para sermos dignos com os outros. Por isso, acho que não devem copiar. Há que criar princípios de honestidade e isso começa em vocês, os futuros homens e mulheres de Portugal. Não concordam? Bem, por hoje é tudo, podem sair. Vemo-nos na próxima aula.
«Espantoso. Quando ele terminou estava tudo lívido, sem palavras. Que fenómeno é este que aterrou em Setúbal? Já me esquecia de escrever. Esta ave rara, o nosso professor de Organização Política, chama-se - chamava-se - Zeca Afonso.»
segunda-feira, 12 de abril de 2021
domingo, 11 de abril de 2021
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